Protocolo elefante: sobre o que não está ali

Demorei um pouco para aceitar o que acontecia durante apresentação de Protocolo Elefante, grupo Cia Cena11, ontem, no Teatro Renascença, dentro do da programação do Festival Porto Alegre Em Cena. Ou melhor, o que não acontecia, pois não conseguia formular claramente o que sentia ou pensava. E não era por deficiência da encenação. É que a dramaturgia do espetáculo recusa o tempo todo o que sustenta usualmente uma apresentação: a presença em cena. Só aos poucos fui me dando conta que a experiência oferecida era sobre o que não estava ali. Uma dança que ali não habitava. Um corpo que ali faltava. Referências que estavam subtraídas. Força anulada. Identidade fugidia. Enfim, o que nos sobra quando tudo falta?

É nesse cenário rarefeito que a resistência se faz, ao esvaziar os sentidos para permitir que não sejam destituídos do que podem ainda vir a ser. É nesse paradoxo que se estabelece a possibilidade de não automatizar um saber que estaciona antes do fim da jornada, empobrecido, debilitado, moribundo.

E mesmo na ausência, vamos sendo povoados de imagens. Holocaustos, apocalipses, genocídios, aniquilamentos, manicômios, prisões, execuções. Toda imagem que vem é pouca pra dar conta. Tudo que se anuncia não encontra alento duradouro, se dilui, se espedaça. É preciso abandonar e abandonar-se para abrir-se ao que não se instaura num território desconhecido, impalpável.

Num momento do mundo em que tudo é tão rápido e facilmente apresentado, explicado, concluído, argumentado, julgado, Protocolo Elefante lembra de uma outra ordem, que suspende, protela, projeta ao abismo. Ao se recusar a ser, Protocolo elefante abre-se a um infinito, sempre assustador e irreversível para quem nele arrisca pisar.

Um exercício que instaura uma atmosfera do sagrado que paradoxalmente se dá no profano dos corpos, de uma transcendência que opera na imanência do que está posto. Afinal a fé não é feita da crença no que não está ali, no que não se vê, mas no que consegue (co)mover a tantos? É quando a experiência estética sugere se fazer religiosa, no sentido de re-ligare. O que nos liga a todos é essa precária e assustadora jornada no escuro. É aí que percebemos que é disso que comungamos, solitários e solidários.

Afinal tudo que não está ali, não pode ser aprisionado, não pode ser censurado, não pode ser calado, não pode ser vetado. Invenção, criação, liberdade e arte ou o fascinante exercício de permitir caminhar sobre o caminho que não há.

Criação, Direção e Coreografia: Alejandro Ahmed / Criação e Performance: Adilso Machado, Aline Blasius, Edú Reis Neto, Hedra Rockenbach, Jussara Belchior, Karin Serafin, Karina Collaço, Kitty Katt, Letícia Lamela, Luana Leite, Marcos Klann, Mariana Romagnani e Natascha Zacheo / Direção de Trilha Sonora, Iluminação e Performance: Hedra Rockenbach / Assistência de Criação: Mariana Romagnani / Figurino, Assistência de Direção e Produção: Karin Serafin / Assistência de Ensaio e Preparação Técnica: Malu Rabelo / Elementos de Cena: Roberto Gorgatti / Artistas convidados etapa espelho: Wagner Schwartz, Michelle Moura e Eduardo Fukushima. /Fotos: Cristiano Prim

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