A implacável Vera K. ou a vida sem bula, nem receita

Não tem como começar este texto sem uma advertência. A de que ele (o texto), com certeza, está comprometido. (O que considero nos tempos atuais, de tanto descomprometimento, possa até certo visto com um certo mérito). Afinal, sou um fã da obra de Vera Karam, escritora e amiga, o que imprime neste texto, admiração e carinho,  que caminharão juntos na prazerosa tarefa de destacar o valor e singularidade de sua produção literária. Portanto, se num primeiro momento, pensei em não ser isento para esta produção, logo me senti à vontade, pois não há talvez como ser mais fiel à obra de Vera, do que falando assim, com paixão e honestidade, qualidades que sempre se destacaram nela e em sua obra. Por isso, a mania de constantemente eu denominá-la de: Vera K., a implacável. Implacável não apenas no seu humor cáustico e impiedoso, mas também pela coragem e firmeza nas suas escolhas, nas suas posturas, nas suas idiossincrasias.

Apesar do considerável breve período de produção que somam uma pequena, porém rica década, Vera escreveu muito e bem. E, com dedicação especial ao texto dramático. Tive o privilégio de acompanhar esse nascimento, seja no lançamento de Contos de Oficina do Assis Brasil e da pré-estréia de Quem sabe a gente continua amanhã?, no saudoso Porto de Elis, antes mesmo da apresentação oficial do texto no Teatro de Arena. De escrever a crítica de Maldito Coração – me alegras que tu sofras. Bem como de propor que seu texto Nesta data querida abrisse a série do IEL, Dramaturgia Contemporânea RS.

Lanço-me então na tarefa de tentar pontuar alguns aspectos que fazem a singularidade e potência de sua obra, agora com contos e peças reunidos nesta publicação do IEL. Uma potência que pode finalmente ser dimensionada pela publicação de textos dispersos e outros até então não editados. Uma potência que se pauta inversamente por um tom miúdo, murmurante, confidencial e precário, traduzido na coragem de expor fragilidades e humanidades daquelas (paradoxalmente) impublicáveis.

Este conjunto de textos permite observar que a obra de Vera tem como matéria-prima enredos e tramas recheados de improbabilidades que se desenham, revelando uma inteligente e refinada capacidade de expor os absurdos da vida sem precisar se afastar do cotidiano, do rotineiro, da prosaica realidade nossa de cada dia. Aliás, seus textos flertam com o absurdo continuamente, o que poderia filiá-la à tradição de dramaturgos como Eugène Ionesco, Edward Albee e Harold Pinter. Mas o diferencial é que o absurdo do seu universo não recorre a situações e contextos fora do comum. É nas cenas mais corriqueiras que esse absurdo aparece com total intimidade. Ou melhor, são absurdos que de tão incorporados já se naturalizaram. E é, portanto, com naturalidade que são reproduzidos, confidenciados, incorporados pelos personagens no seu dia-a-dia. Ou ainda, é na hábil articulação e contrastes que Vera constrói que percebemos, como leitores ou espectadores, o non-sense encravado nos comportamentos e discursos mais banais.

E, por isso, a família é o grande foco da sua obra. Aniversários, brigas de casais, discussões entre pais e filhos, acerto de contas de irmãs, intriga de parentes em datas festivas, visitas a avós, jantares de casamento. Os textos de Vera não precisam ir além de situações como essas, que se estabelecem como um microcosmo, para falar de tudo, de todos, de todo o mundo. Vera estava ciente de que a “família concentra todos os sentimentos humanos”, como declarou em entrevista ao Jornal Palco & Platéia. Sentimentos que são virados do avesso, evitando sobressaltos, vão sendo pontuados sem abalar o curso das coisas que acreditam poderem ser preservadas mesmo quando declaradas insustentáveis.           

Esta moldura familiar dá o tom a Quem sabe a gente continua amanhã?; Noite feliz; Ano novo vida nova; Nesta data querida; e O casal; entre outros textos como os contos Ursinho de pelúcia e Visita à vovó. No seu primeiro texto encenado Quem sabe a gente continua a amanhã?,três velhas irmãs reúnem-se todas as noite num rigoroso cronograma de assuntos a serem discutidos. Para cada dia da semana, um tema retorna à pauta: Getúlio nas sextas; Carlos Lacerda, nas terças; etc. As línguas ferinas de cada uma conduz um encontro hilariante, recheado de acusações, revelações e ataques (verbais). Como sublinha Norma, fazendo referência ao clássico filme protagonizado por Bette Davis e Joan Crawford: “A Baby Jane pelo menos tinha só uma irmã. Eu tenho duas”.

Se essa pequena peça era um ensaio para diálogos engraçadíssimos, Ano Novo Vida Nova dá suporte para Vera aprimorar sua carpintaria teatral numa colcha de retalhos da família que espera a virada do ano. Os personagens vão se desenhando com complexidade, em diálogos fluídos e irônicos, enquanto se enredam em suas próprias palavras. As irmãs solitárias Mercedes (viúva), Marta (desquitada), Rosa Maria (solteirona) e Clara (filha de Mercedes, que decidiu passar um ano de chambre como promessa para arrumar namorado) esperam parentes e agregados enquanto remoem o passado até um final irreverente e inesperado.

Seja a família, o trabalho ou outra qualquer situação social que os personagens apareçam, o que se coloca são quase sempre indivíduos solitários ou na iminência da solidão. Essa solidão não se coloca apenas como assunto nos seus textos, mas como forma estruturante de muitos de seus escritos. E, por isso, seus textos são repletos de monólogos, explícitos como na peça Maldito Coração, me alegra que tu sofras e Aspargos uruguaios em oferta ou implícitos, como no conto Há um incêndio sob a chuva. No primeiro, a personagem mais do que falar para o público ou um convidado, discursa para si mesma, tentando convencer-se de uma realidade que não existe. Já no referido conto, é uma vizinha que tenta estabelecer, sem sucesso, uma conversa com seu vizinho. E por mais que a situação de diálogo tente se estabelecer é mais outro personagem que busca em vão um interlocutor.

Em Ano Novo…, outro exemplo, é o da televisão ligada que aparece como o mais atento dos interlocutores, completando diálogos ou sugerindo conclusões. Em dado momento é a trama da telenovela que esclarece: “O dia que pararmos de nos acusar, não vai sobrar nada. Vamos perceber, surpresos, que nos falta assunto”.

A condição de isolamento no mundo é delineada de diversas formas, contudo se adensa nos contos, nos quais os sorrisos que brotam são meio constrangedores frente à melancolia poética dos personagens, que riem para, literalmente, não chorar. Vinte e quatro de dezembro e A vida alheia são contos de um lirismo cruel pela consciência das personagens em suas narrativas biográficas concordantes na falta de melhores perspectivas. Solidão que pode durar uma vida toda, como no amor platônico do cobrador de ônibus de Tudo na vida é passageiro. Mesmo quando conseguem esboçar uma reação às dores deste abandono, como em A noiva do Caí, o sabor da vingança não evita o agravamento de tal condição.

Mesmo em cenas repletas de personagens ou nas cenas de casais, cada personagem ironicamente parece estar atuando sozinho, em solo, pois as palavras de um parecem não encontrar dificilmente, ou mesmo nunca, escuta no outro. Ou ainda, o outro parece ouvir um outro texto que não o proferido. Enfim, é como se, muitas vezes, todos falassem sozinhos. Monólogos interiores, travestidos de bate-papo. A incompetência de se fazer entender imprime essa condição solitária e vazia de tantos personagens. Inclusive quando há o encontro, como em A florista e o visitante, as palavras parecem mais do que aproximar, afastar a dupla de um entendimento.

É assim em Dona Otilia lamenta muito que tem seu enredo em torno de um casal que está comemorando dez anos de casamento. A esposa prepara um jantar surpresa sem saber que o marido decidira deixá-la. Num texto curto, um irresistível, fascinante e perverso jogo. Um jogo de linguagem. Um jogo de aparências. Mas um jogo sem maniqueísmos, no qual todos estão fadados a erros trágicos (ou tragicômicos). Erros que podem ser simplórios como em Dá licença, por favor?, que narra o impasse de um espectador para ocupar sua poltrona no teatro, pois uma senhora colocou a bolsa no assento. A partir desse fato que poderia ser desprovido maior relevo dramático, Vera faz um exercício de humor, primoroso, que chega às raias do absurdo e evidenciando que a capacidade de comunicação nem sempre pode ser considerada um trunfo na conquista da racionalidade humana, como ilustra o trecho abaixo.

HOMEM

Não, minha senhora, pergunto se alguém VAI sentar aí.

MULHER

Bem, eu sou espírita; não sou vidente. Como é que eu posso saber?

A habilidade com o jogo de linguagem da personagem faz um pequeno exercício de tortura lógica com o personagem do espectador que quer se sentar e se divertir, mas que precisa “interagir” com a cena que se impõe. Uma metáfora sobre o próprio evento teatral.

            Em outros textos os erros podem ser bem mais perversos, como o dos pais que trocam o tempo todo o nome da filha pela que já morreu em Nesta data querida. Uma peça que talvez sintetize a coleção de erros, como o da esposa que não inclui na lista de convidados do aniversário do marido nenhum dos amigos que ele gostaria de receber e que prepara um cardápio no qual não aparece nada que o aniversariante aprove. Erros propositais ou não, que vão criando um painel de humor negro, atravessando as trivialidades dos preparativos do jantar, no qual orbita a filha que parece não entender nada, apenas parece, como revelará o final surpreendente.

            Mas há ainda os equívocos anunciados e assumidos como o de Aspargos. Nele o personagem admite:

Pior: errei de uma forma como nunca havia errado quando ainda tinha o álibi da inexperiência. Pior um erro assim fora de hora, quando já estávamos nos retirando do jogo e é nessa última jogada, justo aí, que perdemos tudo que havíamos ganho e ainda ficamos devendo. Um erro temporão põe toda uma vida sensata a perder, porque é irrecuperável.

            Há nos textos de Vera Karam uma constante desconfiança. Não uma desconfiança paranóica, mas uma desconfiança que suspeita continuamente do estado das coisas e de sua suposta naturalidade. Em Ano Novo… acompanhamos o seguinte diálogo:

MARTA: Eu não acredito mesmo. O Nilton não tinha morrido num desastre?

MERCEDES: (fica pensativa) O Nilton? O nosso primo? Será? Bom, vai ver que não…pois se ele está na cidade…

ROSA MARIA: Vai ver que foi o irmão dele… Ah, que diferença faz? Vivo ou morto, o importante é que ele vem.

Apesar dos indícios e suspeitas, os personagens preferem seguir adiante, sem precisar tomar alguma atitude mais efetiva. A mãe que espera a filha trancada no banheiro se aprontar para sair em Visita à vovó age assim. “Tirou aquele esmalte pavoroso das unhas? Esmalte marrom…se tem cabimento…Aliás…tu não roía as unhas? Acho que roía. Então aquelas unhas eram postiças….como foi que eu não me dei conta?”. E prossegue falando pelos cotovelos mesmo que nenhuma resposta venha de parte da filha.

O próprio tema da suspeita é o mote para a paródia O assassinato de Miss Agatha. Escrito a quatro mãos com o diretor teatral Elcio Rossini, o texto brinca  com o gênero das novelas policiais. Em uma pitoresca hospedaria londrina, todos parecem suspeitos e obviamente um crime precisa ser solucionado enquanto iminentes culpados  ocultam segredos. Como neste exercício de suspense, as dúvidas perpassam as tramas, mais ou menos explícitas. Uma atmosfera de incredulidade paira no ar, mas, fora do contexto das novelas policiais que concluem “o caso”, no cotidiano dos personagens isso quase nunca é suficiente para interromper o fluxo das coisas já estabelecidas, como aparece em O casal:

ELA – (ESPERANÇOSA) Quem sabe se voltássemos a ter desconfianças um do outro?

ELE – Tarde demais. Não sinto mais nada por ti. Poderias fazer amor com o tintureiro aqui na minha frente e eu não sentiria nada.

            Essas constatações são anunciadas de maneira mordaz também nos contos. Como se a vida fosse repleta de parênteses que denunciam suas estratégias de engano e ilusão. Em Ursinho de pelúcia o personagem não deixa de notar na estranheza que todos lidam com a mãe, “tentando convencê-la do que nenhuma pessoa poder ser convencida: de que o melhor lugar para ela é uma clínica e não a própria casa.”.

            A dramaticidade que Vera alcança muitas vezes está na incredulidade acompanhada de total passividade. Em O Casal, em certo momento eles se dão conta da situação, mas seguem normalmente:

ELA – (SEM SE ALTERAR) O fogo vai se alastrar e incendiar o prédio todo.

ELE – Faz tempo isso. Acontece todos os anos. Há anos e anos as pessoas se intoxicam com a maionese do casamento e mesmo assim a humanidade não aprende: continua casando.

            A realidade nua e crua, é demais para os personagens, que andam à margem evitando feridas graúdas, distraindo-se com raspões e arranhões. Como coloca Rosa Maria em Ano Novo… “Viram? Verdade, sempre a verdade, estragando as mais belas comemorações de família”, ou como o personagem de Aspargos… que num primor de doída lucidez, declara: “Tínhamos duas vidas, uma fictícia e o avesso, o rascunho, os ´bastidores´. Era tudo exatamente igual a todos os outros casais. Só que não era verdade.”

Vera sempre me pareceu implacável em perceber e expor os sintomas crônicos de se viver, com inteligência, humor, lirismo e intensidade. Seus textos vão diagnosticando com ironia os males que adoecem as relações, como em O casal quando eles parecem perceber o fulcro da relação.

ELE – Não te ilude. O amor um dia acaba. Nos separaríamos.

ELA – E agora?

ELE – Agora nos detestamos: é mais garantido.

            Outros textos condensam tragica e poeticamente a condição humana como num breve fragmento do conto A vida alheia. “Acho que data desta época a idéia que começou a se formar em mim de que a ausência de sofrimento já é alguma felicidade (talvez a única que se possa almejar)”.

            Em meio ao que poderia ser identificado como pessimismo e descrença, Vera parece reafirmar um ética de vida sob novos paradigmas e não falsas promessas de segurança e certezas. Em um texto curto Será que é o contrário a vida da atriz ?, ela reflete sobre o próprio ofício do teatro para abordar a questão. A personagem em certo ponto cogita distribuir um folheto para o público, com instruções para cada cena, como sorrir; rir mais alto; dar gargalhadas, suspirar, profundamente comovido; ir às lágrimas. Logo ela se indaga e conclui.

Não seria mais seguro? Bom, tá, vocês vão me dizer que se eu estivesse realmente procurando segurança estaria fazendo outra coisa, menos teatro. Vocês estão certos.

Vera foi implacável na sua escrita, porque estava ciente dos riscos, tanto da vida e quanto da arte, que não vêm acompanhados nem de bula, nem de receita. ��{�

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