A dor e a delícia de um corpo que dança e consome (e se consome)

Poder acompanhar o começo de um criador de dança é sempre um momento especial e cheio de expectativa. E no caso de Reutilizáveis Corpos Descartáveis um começo cheio de boas expectativas que se confirmam. A primeira porque Maurício Miranda assina não só a coreografia como a direção artística de uma Cia com quase 40 anos de trajetória e que tem no seu DNA a jazz dance de Suzana d´Ávila. Mas também porque é bacana ver um intérprete maduro e multifacetado se lançando de maneira plena nesse novo território, munido de uma trajetória de 20 anos de atuação na dança – muitos deles no próprio Transforma -, vencedor do Prêmio Açorianos de Dança como melhor bailarino e integrante da Cia Municipal de Dança de Porto Alegre.  E por fim, porque faz isso com um resultado qualificado, que coloca em cartaz na temporada de 2019 mais uma significativa produção no cenário de dança

Reutilizáveis Corpos Descartáveis apresentado neste final de semana no Teatro Renascença parte de uma temática atual e presente no cotidiano, do uso e desuso de tudo que consumimos, e afinal como isso afeta esse corpo e mais ainda esse corpo que dança. E aí reside um dos grandes acertos iniciais da montagem que vai construindo uma série de seqüências em que os padrões de consumo vão se desenhando coreograficamente. E isso é saboroso, pois o elenco transita com desenvoltura e humor pelos padrões e desvios que levam ao desejo e ao descarte. Não precisa de discurso maior do que esse corpo que dança (e muito bem, dispensando qualquer necessidade de texto ou teatralização) e que ganha espaço e perde espaço, que o tempo faz se estabelecer e desaparecer de maneira tão efêmera esse corpo dançante, como quem compra, usa e descarta. A dança em si é a maior metáfora do tema do espetáculo.

Por sua vez a mistura do vocabulário da jazz dance está ali, mas não se contenta em ficar nesse lugar seguro e explora outras configurações dançantes-corporais. E esse jogo é defendido de maneira inteira pelo elenco formado Cintia Bracht, Daniela Muttoni Costa, Dante Saldanha, Denise Almeida, Kleo Di Santys, Luíse Robaski, Maurício Miranda e Pedro Coelho. Em algumas montagens do Transforma, o elenco feminino não brilhava como o masculino e não por falta de técnica, mas por talvez uma falta de convicção no que era proposto. Os “guris” pareciam se jogar sem medo mais do que as “gurias”. Em Reutilizáveis há um trabalho que revela um entendimento e presença cênica de todo elenco de maneira efetiva o que dá um estofo especial à obra. Todos se jogam e o jogo se estabelece.

O espetáculo trata do assunto sem nos privar de nos deliciarmos com uma dança vigorosa, fluída e por vezes tensa e estranha, mas sem jamais perder o swing de uma trilha muito bem escolhida, que embala e nos embala. Velocidade, pausas, acentos, contrastes de pequenos gestos e movimentos escandalosamente expansivos, maneirismos metidos à besta, poses frustradas vão estabelecendo contrastes e conflitos, às vezes sedutores, às vezes engraçados, às vezes vertiginosos. Destaque para o quarteto feminino que oscila entre a beleza e o bizarro que o apelo da sociedade produz e provoca. O elenco está ali para dançar e nos envolve ao fazer isso muito bem que não nega suas raízes, mas se permite experimentar outros modos de re-utilizar esses corpos.

Há de se destacar ainda a produção caprichada de Guadalupe Casal e a iluminação certeira de  Karrah. Os figurinos de Antônio Rabadan, Julia Dieguez Lippel, Mova e elenco também dão conta do recado, especialmente nos momentos de um estilo plastic-body, que veste e embala esses corpos ao mesmo tempo.

Como todo começo de criação é envolto num turbilhão de ideias e desejos, há sempre o risco de se querer colocar tudo num único espetáculo como se não fosse haver o próximo. Nesse sentido o espetáculo, no seu “miolo”, interrompe o que vinha sendo construindo para trazer a perspectiva de um consumo sentimental-afetivo-romântico com uma sucessão de músicas “bregas” de Fagner, Alcione e hits sertanejos que interrompem de maneira abrupta com um humor de outra ordem o que se desenhava de maneira tão clara. Um momento que parece apontar para uma outra provocativa pesquisa que não é costurada (e talvez nem tenha como) com tudo que vinha sendo apresentado e nem com o que virá. A força do sujeito abraçado em um coração gigante e fofo, sendo embrulhado em metros de plástico-bolhas é uma imagem de força suficiente e tão singular, superior a qualquer letra de música já tão desgastada.

Tanto que logo em seguida vem um bloco que retoma as questões formais iniciais e a dança se estabelece com uma trilha vibrante e rítmica que embalam a dança plasticamente embalada, revelando o que não se pode descartar: a dança bem feita e bem dançada. A dança que nos leva junto, que nos atravessa, que nos encanta, que nos provoca. A dança que pede espaço é essa do paradoxo de quem consome e também é consumido.

Enfim, o trabalho dá conta de fazer o trânsito entre o patrimônio de jazz que o Transforma carrega e acena para frutíferas experiências de criação que possibilitam fazer de todo seu potencial técnico um trampolim. Esse encontro promete, pois valoriza e revela aquilo que a jazz dance produz e carrega, mas que não a deixa presa e condenada a ser só que já foi. Que essa potência de dança não se consuma, nem seja descartada e permita que o tempo continue gerando não apenas o desuso, mas também o amadurecimento e a transformação, que a Cia já carrega em seu próprio nome e sempre foi defendida com louvor e garra por Suzana d´Ávila, que sege à frente da direção geral. Reutilizáveis Corpos Descartáveis faz a gente se deliciar com sua dança e desperta já o interesse na continuidade que essas apostas podem e vão gerar.

fotos: Rafael Guedes e Claudio Etges

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