Metades: pra reunir os pedaços de nós à deriva por aí

Quando saí de casa nesse domingo chuvoso, saí sem expectativas. Uma amiga professora de dança aposentada havia insistido pra ver o espetáculo que estava participando, amador, como deixou claro. Assim fui ver o Grupo Experimental de Dança 373, no espaço de mesmo nome 373. Aí a primeira boa surpresa. O casarão na rua Comendador Coruja todo reformado era acolhedor e simpático, para pouco  mais de 40 espectadores bem apertadinhos. E logo um texto em off deixava claro que o que assistiríamos não era apenas uma coleção de coreografias fruto de resultados de aulas, mas algo que estava atento à situação política e cultural que atravessamos, preocupado com a arte e sua capacidade de valorizar a existência, de valorizar o que de humano nos aproxima e une. Fiquei intrigado.

Eu sabia que Metades é o primeiro trabalho do Grupo Experimental de Dança 373 baseado no poema de Oswaldo Montenegro e que fazia sua quarta temporada. Mas o que eu não sabia era que iria vivenciar por quase uma hora e meia foi uma envolvente e comovente tarde de domingo que me remeteu a coisas como um show de variedades de colégio ou de um sarau com atmosfera familiar, e o que ressalto aqui não deprecia de forma alguma o espetáculo, pelo contrário, o reveste de valor e mérito. E tento explicar.

O primeiro acerto  é que o que costura a montagem sua imensa honestidade, muito bem vinda nos dias de hoje. O elenco e direção têm claro o que se propõe e é tudo muito verdadeiro o tempo todo. A aposta é na simplicidade sem deixar de ser haver um cuidado delicado em todos os detalhes, da luz à trilha sonora.  Aposta é num exercício sincero e fraterno, cada participante faz o que lhe cabe e colabora com os demais o tempo todo, todos ajudam na contra-regragem, na organização da cena, no entorno. E é nesse exercício coletivo de acolhimento, de partilha e de verdade que se desenha a dimensão política anunciada. Não há nada panfletário.  Somos convidados a perceber aquilo que nos aproxima na paixão e na dor, na precariedade e na força, da angústia e na superação. Tudo é de uma pureza tocante, seja no casal de crianças que canta Leãozinho, de Caetano Veloso ao elenco de mulheres maduras e cheias de histórias que cantam, dançam e dividem um pouco de suas biografias. Tudo isso com auxílio de um naipe musical que manda muito bem nas canções e instrumentais e profissionais convidados da dança, teatro e circo que se juntam nesse mutirão afetivo-artístico.

O elenco  central formado por Celina Lambre, Fernanda Diniz, Luciana Papi, Luciane Flach, Lais Merker (responsável pelo convite), Natalia Streigleder, Patricia Figueiredo, Pris de Souza, Rosangela Rolim, e Vanessa Trombini desvelam a concepção e coreografias de Cris Nunes  cheias de expressividade e força. E daí aparecem muitas cenas primorosas como o duo de “jazzão” de Celina e Luciana que capturam a gente pela integridade que o realizam.  Tudo por vezes parecendo meio datado, antigo, uma dança que parece não ter mais vez ou lugar. E todxs defendem de maneira autêntica seus gestos e seus movimentos e nos levam junto em todas as coreografias de conjunto.

Talvez a única peça fora de lugar seja a cena que tenta retratar a infância. Afinal o ser criança já está presente em todo investimento experimental e lúdico que se configura. Está ao longo de todas as cenas, o jogo vívido e cúmplice.

Entre as coreografias do elenco central, somos presenteados com um vigoroso e audaciosos solo flamenco de Ana Medeiros ao som de uma guitarra elétrica ou ainda Le Rambo e Vanessa Generoso na cena da lira ao som de Astor Piazzola. Tudo contando com a  direção cênica de Jacqueline Pinzon e pontuado pelo poema que dá titulo ao espetáculo, fragmentado na voz de Débora Araújo que também nos presenteia com várias canções ao lado de coletivo musical que reúne os inspirados Renata Carreira, Fredi Bessa, Robson Serafini e Ana Medeiros.

Mas a delicadeza também se abre à denúncia e à confissão doída como nos textos autobiográficos que trafegam pelo preconceito, violência, intolerância, desumanidade, tristeza e determinação. E não é à toa a cena de Patricia Figueiredo exibindo toda sua beleza fora do peso e das formas dos padrões atribuídos a quem dança. Vamos nos dando conta que estamos diante de um tocante painel de diversidade. As mulheres que dançam não são jovens bailarinas mobilizadas pelo fascínio da exibição técnica e da estética vazia. A história está nos corpos a que assistimos, talvez com não toda vitalidade e com todo virtuosismo que a arte da dança impõe, mas capazes de achar o espaço pra revelar o universo que se desvela cheio de personalidade e atitude, porque tem densidade interior.

É nesse sentido um espetáculo subversivo até e não porque remete ao óleo espalhado pelas praias do nordeste ou os incêndios que destroem a natureza do nosso país. É subversivo porque afirma o que está fora do eixo usual da dança, porque não tem medo ser ridículo, piegas, ultrapassado. É o que pode ser. Aceita as singularidades mesmo que elas incomodem. Inclusive porque flerta com as imperfeições, que nos fazem tão humanos e que a arte tantas vezes se distancia. Cada vez mais falo em sala de aula da estética do erro, da imperfeição, do inacabado. Isso é matéria-prima da vida e pode ser tão fascinante como o salto e o giro perfeito. Então também subversivo porque se faz experimental, aceitando a aventura do improvável, do incerto e suas deliciosas surpresas.

Metades não podia ser mais certeiro nisso, porque o que nos une é nossa incompletude. Nossas metades que ao se permitirem se aproximar, superam a precariedade e permitem que a existência ganhe outro contorno. Me senti em casa no 373, bem à vontade, com intimidade pra puxar um prosa ou pra arriscar uma poesia. Arte mostrando que pode reunir nossos pedaços e não nos dispersar atônitos como preferem nos fazer acreditar os rumos de um mundo que teima em aprofundar abismos ao invés de criar caminhos de convivência fraterna.

Fotos: Airton Tomazzoni

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