I Mostra de Dança Inclusiva: descobertas e desafios

Demorei um pouco pra escrever sobre a I Mostra de Dança Inclusiva que se realizou ida 23 de outubro no Teatro Renascença. Primeiro porque foram muitas questões que a Mostra me fez refletir e também porque mais cedo do que imaginávamos tivemos que organizar a segunda edição da Mostra, no dia 2 de dezembro dentro da programação da Magia Inclusiva de Natal, no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues. Mas prefiro assim, com tempo de processar as informações e experiências e evitar considerações apressadas que se proliferam tão rapidamente sem critérios hoje em dia.

A primeira edição superou todas as expectativas, tanto no número de inscrições quanto de público que fez a lotação do teatro insuficiente para os espectadores interessados em conferir essa produção. Foram mais de 30 coreografias inscritas de Porto Alegre, Esteio, Caxias do Sul e Santana do Livramento. Isso já seria surpreendente, pois revelou uma produção quantitativamente acima da que estimamos. E isso foi uma das valiosas descobertas. O número de projetos, instituições e escolas que estão abrindo espaço para a dança inclusiva. O cenário dessa produção revelou dezenas de trabalhos que envolvem bailarinos e bailarinas cadeirantes, com deficiência auditiva e visual, Síndrome de Down, autismo, paralisia cerebral,  pessoas com diversas habilidades e padrões intelectuais e corporais.

Mas quantidade nem sempre é um indicador positivo se não vier acompanhada de qualidade, propriedade e cuidado. E isso foi também extremamente exitoso. O que se viu em cena foi um sucessão de trabalhos diversificados nas suas metodologias, qualificados nos seus resultados, inventivos e generosos. Sucesso não medido apenas em aplausos, mas no que cada participante em cena traduzia no rosto, nos depoimentos de quem dançava e de quem assistia, revelando a potência transformadora de cada trabalho.

A provocação para o Centro Municipal de Dança realizar o evento veio da professora Marcia Rodrigues, da Escola Municipal Tristão Sucupira Vianna, que tem uma tradição de 25 anos no trabalho da dança com alunos especiais, no bairro Restinga. A produção coreográfica do grupo de alunos da Escola já ganhava espaço anual no calendário. O diferencial foi, com esse evento, reunir esses trabalhos juntos em cena. E o Tristão veio em dose dupla com a força da dança folclórica, um siriri e um tributo às danças gaúchas.

Foi momento afirmar o trabalho do Grupo Andança que Andrea Braga Beal coordenada com todo cuidado desde 2001 semeando essa proposta que chegou num grande e comovente baile com 10 cadeirantes e suas partners.  Foi momento de se emocionar com a pequena e jovem Manuela, que mesmo sem os membros inferiores, deslizou sobre um skate e bailou em sua cadeira de rodas na coreografia Poquito, de Fabiane Póvoa, do grupo Dança Diversa – Rs Paradesporto. Alex e Fernanda Majorczyk trouxeram a elegante pesquisa de tango, e balé em Obssessão, cuja versão em vídeo já havia sido indicada ao Prêmio Açorianos de Novas Mídias.

O Grupo Diversos Corpos Dançantes, projeto de extensão da UFRGS, criado por Carla Vendramin e já premiado com o Prêmio Açorianos Destaque de Dança. O Grupo apresentou a coreografia Cheiro de Encontro, de Maria Waleska Van Helden que também dividiu a cena numa sutil e provocante experiência sensorial. A programação contou também com Grupo Fábrica de sonhos – arte, inclusão e pertencimento que apresentou a coreografia: Revoada, com um acabamento cênico impecável capitaneado pela incansável e talentosa Bianca Bueno ao lado de Paula Carvalho.

A bailarina e coreógrafa Maria Albers revelou seu sensível, poético e político trabalho (quase desconhecido) em dose dupla. Com Grupo NAU da Liberdade centrado na articulação entre arte e saúde mental, experienciando uma proposta de desinstitucionalização da loucura através das artes cênicas e da criação. Na coreografia Eu Não Me Encaixo o grupo fez um exercício inspirador e posicionado sobre os aprisionamentos gerados pela sociedade quando se quer enquadrar a todos nos mesmos padrões. Já na Oficina de Dança do Caps II Esteio, com a coreografia Coração Balão encheu o palco de balões vermelhos num delicado e contundente exercício dançante com pessoas em tratamento por transtornos psíquicos.

Entre outras surpresas o SIR na dança – Escola João Satte apresentou a coreografia Heróis, de Thiago Branco, revelando os superpoderes dançantes dos meninos que compõe o grupo. A cultura gaúcha voltou ao palco com o Grupo de Dança Projeto Borboleta em Borboletas na tradição. E as a cena encheu-se de fitas multicoloridas para tornar o sonho da menina bailarina ganhar forma, com Associação Legato na coreografia Ilusão, de Consuelo Vallandro. E o SerAmbiente fez seu duo suave e cheio de encantamento.

Duas escolas reconhecidas pelo seu trabalho em jazz, balé e outras linguagens, mostraram que estão buscando os caminhos da inclusão. O Espaço de Danças Rodrigo Garbin veio com o Grupo de Dançaterapia na coreografia: Cheguei! e o DuCorpo Studio de Dança fez do balé o condutor da dança As rosas e o pequeno príncipe.

Instituições já consolidadas também estiveram  presente como o Grupo de dança escola Nazareth – Apae POA, com coreografia O próximo passo. E o interior do estado também este muito bem representado com o Grupo Giro Livre que viajou mais de 500 km para presentear o público com a coreografia Dançando pelo Rio Grande, de Nereida Lampert, lá de Santana do Livramento.

Esse panorama tenta traduzir um pouco do significou a I Mostra de Dança Inclusiva, especialmente o quanto é feito, muitas vezes sem o devido incentivo ou mesmo sem qualquer apoio. Mas revelou também o quanto nossos espaços de apresentação precisam melhorar em termo de acessibilidade. O próprio Teatro Renascença, só tem acesso para cadeirantes ao palco pela área externa, que sem cobertura, torna inviável isso em dias de chuva.

O evento provocou a reflexão do quanto precisamos avançar para estarmos aptos a receber esses alunos em nossas turmas seja na universidade, em escolas e academias de dança ou mesmo em projetos como do Grupo Experimental de Dança.

E ainda o evento me fez ficar ruminando o quanto a dança, uma arte que por tantas vezes fica obcecada em seus resultados técnicos pode e deve incluir o resultado ético aliado ao estético. E talvez nesse momento estejamos precisando menos da tal perfeição buscada e mais dessa humanização tão intensa que a dança é capaz de produzir. E aqui não digo de buscar menos do artístico, que esse público merece e deve ter, mas de entender que o artístico se faz de muitas ordens, onde a da solidariedade e da partilha pode e devem estar incluídas e valorizadas. Então faço questão de repetir minha reverência a todxs essxs artistas/educadores que insistem e resistem por vezes quase invisíveis: Marcia Rodrigues, Andrea Braga Beal, Bianca Bueno, Carla Vendramin, Nereida Lampert, Maria Albers, Maria Waleska Van Helden, Eduardo Camargo, Thiago Branco, Fabiane Póvoa, Fernanda Majorczyk, Consuelo Vallandro, Marcio Pizarro, Paula Carvalho, Roberta Spader e Ravena Lucas. Que além da terceira edição, possamos ter um encontro para trocar e promover o intercâmbio de experiências e que os espaços para dança inclusiva sigam se ampliando, ganhando reconhecimento e visibilidade e todos os eventos e programações acolham também essa produção.

fotos: Rodrigo Stobaus

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