A cena tecnológica em tempos de racismo: Afro-Sul Odomodê e as estratégias para escapar do nocivo monocromismo artístico

Dando sequência a uma série de textos referentes a esse ethos da cena midiatizado a ideia era trazer algumas experiências que acredito poder ajudar a pensar os muitos e complexos aspectos envolvidos nos novos formatos que se propagaram pelas mídias digitais. E queria começar com as lives no instagram O feminino sagrado – um olhar descendente da mitologia africana promovido pelo Afro-sul Odomodê, grupo com 45 anos de história

O circuito de lives se propõe a compartilhar cenas e bastidores da concepção do espetáculo indicado a seis categorias do Prêmio Açorianos de Dança (melhor espetáculo, direção, coreografia, figurino, trilha sonora e produção): O feminino sagrado – um olhar descendente da mitologia africana, criado em 2016. E como anuncia a divulgação se configura em “um bate papo gostoso e também um pouco de dança para fazer a ancestralidade fluir pelo corpo.” Bate papo conduzido pela mestra Iara Deodoro e convidadas como Gisele Mendonça, Edjana Deodoro e Taila Souza.

Em cada live é contada a lenda de uma orixá feminina que fez parte da estrutura do espetáculo: OXUM, IANSÃ, IEMANJÁ e NANÃ. Nas lives já realizadas, uma centena de internautas acompanharam as narrativas das lendas, cenas do espetáculo e até mesmo uma breve aula da respectiva dança, que nos arriscamos aqui em casa a reproduzir, entendendo a origem de cada gestual e seqüência coreográfica. A iniciativa consegue, ao mesmo tempo que apresenta a produção cênica destacada do grupo, contextualizar essa produção, especialmente o caráter comunitário dessa feitura que é de outra ordem a de muitas produções. E, além disso, ainda nos põe a dançar junto.

Mais do que apresentar um espetáculo bem acabado artisticamente, o trabalho do grupo é conseqüência da vivência da sua cultura que coloca em cena gerações e que dialoga o tempo todo com sua ancestralidade vivenciada no cotidiano e não apenas de acontecimento no palco. Lembro de um comentário que ouvi e rebati na época da estreia e que afirmava que a participação das crianças em cena comprometia o resultado artístico, ameaçava a organização da cena. E na live sobre Iansã pudemos entender da participação de todo um universo familiar e da figura da guerreira que defende seus filhos. Como falar disso apenas “encenando”? Como retirar criança pra não atrapalhar a cena? Iara Deodoro nessas lives tem a possibilidade de traduzir o que é desconhecido e o que o palco tantas vezes não permite anunciar.

Essas lives são uma possibilidade de poder compreender uma outra ordem da cena que não é a da tradição européia ou que ao subir no palco italiano propõe outros tipos de relação com a cena e com quem a assiste. Esse circuito de saberes ganha força nesse formato e difunde um aprendizado sobre uma cultura que faz uso do palco, mas que transborda para fora dele. Esse jeito de fazer carrega outras perspectivas.

A iniciativa do Afro-sul Odomodê inova e cria outros canais para falar e visibilizar sua produção cênica que ainda muitas vezes é cobrada por outra ordem de encenação que não aquela que se propõe. Esse aspecto é uma via diferenciada e decisiva que institui um outro ethos, um outro modo possível de lidar com a cena e de dela fazer uso, o que é altamente valioso. E isso acontecendo em meio a um turbilhão de acontecimentos que colocam a questão racial em pauta no Brasil e no mundo. E na qual a cena midiática tem tido um papel decisivo, afinal a deplorável cena de George Floyd pedindo uma chance para respirar ou do pequeno Miguel sendo colocado sozinho no elevador trazem à tona toda a cruel desigualdade que ainda impera na sociedade e a necessidade de se avançar nas conquistas que passam pela superação da intolerância e dos apagamentos das narrativas, histórias e cenas de uma cultura ainda não devidamente valorizada e reconhecida e muitas vezes amordaçada, negligenciada.

E que bom que a mídia tem sido um circuito importante nessa direção e no qual o espaço como o que o Afro-sul vem ocupando tem importante ação estratégica. Mas ao mesmo tempo há de perceber que aí reside também uma já inicial desigualdade. Dados em 2016 da Pesquisa TIC Domicílios realizada pelo CETIC.br indicava que apenas 54% da população brasileira possuía acesso à internet em casa, o que representava pelo menos 95 milhões de brasileiros e brasileiras sem nenhum tipo de conexão, nem mesmo a partir do celular. Em 2014, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) produziu uma pesquisa sobre Acesso à Internet e à Televisão e Posse de Telefone Móvel Celular para Uso Pessoal (PNAD2014TI). A pesquisa mostrou que, da população com mais de 10 anos que havia acessado a internet nos últimos três meses, 61,5% eram brancos, enquanto, entre negros e negras, este percentual era de apenas 39,5%. A diferença entre os continentes revela um abismo ainda maior. Segundo pesquisa da Unicef, na África, 60% das pessoas entre 15 e 24 anos não têm acesso à internet; já na Europa, essa porcentagem cai para 4%.  https://brasil.elpais.com/brasil/2017/12/05/tecnologia/1512475978_439857.html

Ou seja, que produção cênica é e será essa que o mundo digital está ofertando e ofertará? Quem a ela terá acesso à produção e consumo? Que avanços e limitações se desenham? Qual a maneira da cena artística negra ocupar esse espaço efetivamente e não ver reproduzida a lógica cultural da cena tradicional? Como pode a inclusão digital acontecer onde a desigualdade é tamanha? O certo é que esse cenário midiático é a arena na qual a cena artística terá de atuar para uma construção que escape das ciladas já delineadas e que possa se estabelecer democrática e diversa. Vidas negras importam, não importa a cena que seja. Que esse espaço e ação do Afro-Sul Odomodê se firme, tenha continuidade e se amplie assim como a de ações de outros coletivos como o das Meninas Crespas, da Flashblack, do Corpo Negra, Coletivo Òmìnira, Afrobapho, entre outros. Que a cena midiática não corra o risco de seguir se pintando monocromática. Mas um bom começo é prestigiar essas lives e ficar de olho nas produções que estão vindo por aí. Bora lá!

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