A cena começa a gostar do jogo midiático (e a entendê-lo)

A cena esvaziou e em alguns instantes inflacionou com repertórios on-line, lives, performances, leituras dramáticas, web eventos de toda ordem numa profusão desenfreada, que começou tímida e de repente ficou quase impossível de acompanhar. E nesse processo, confesso que muita pouca coisa me interessou de verdade, me mobilizou com alguma intensidade, me tocou efetivamente, com aquela vontade de escrever logo que saía de uma apresentação (e pode ser porque não tenha conseguido acessar no meio dessa inflação da cena midiática que pela quantidade dificulta muitas vezes o rastreamento de tanta oferta simultânea e contínua) E não é nostalgia nem comparação, pois esse é um erro fatídico. Não há comparação justa. É outra coisa e não mais o que se tinha. E essa constatação não é um demérito. Ok gente. Fomos pegos de surpresa e valeu o que for possível e as alternativas que puderam e podem garantir a sobrevivência dessa cena. Mas o que me interessa é pensar, refletir, mais do que concluir qualquer coisa, é de como essa produção pode se qualificar e se estabelecer não com igual efeito, mas com uma capacidade própria de estabelecer outro cenário cativante, provocante, inteligente, instigante, sensível tanto quanto a cena presencial, ainda que por outros caminhos e construções.

Por isso foi bem animador acompanhar a live de Deus é um Dj, no sábado à noite com transmissão no instagram pelo perfil do Instituto Goethe de Porto Alegre e que reuniu quase 200 espectadores virtuais para acompanhar o espetáculo com texto primoroso, que eu desconhecia, do alemão Falk Richter. Nele temos um casal (Ela, uma ex-VJ, e Ele, um DJ) contratado por uma galeria de arte para filmar e transmitir seu cotidiano. Nada mais atual e perturbador em tempos de confinamento e lives pra todos os lados.

Ao se propor ao desafio, o Grupo Jogo fez um saborosa noite de sábado, de minha parte capaz de concorrer com alternativas da TV aberta, à cabo ou Netflix. Isso porque temos na live um par de talentosos e versáteis atores, Louise Pierosan e Gustavo Susin, um equipe afinada que conta com o diretor audiovisual Gabriel Pontes e um encenador que nos inquieta Alexandre Dill, sem ficar só na promessa. Tanto que me deixou inconsolável por não ter podido ver no palco um espetáculo com o qual me conectei na temática e abordagem e que me envolveu, incrível possibilidade de vivenciar essa ação virtual, desfrutando-a.

Mas além das qualidades que a obra já carregava de sua montagem para palco, a apresentação on line foi além e se valeu do que o suporte midiático, esse ethos midiatizado da cena oferece como potência ao invés de lamentar o que poderia ser precário nesse momento. E o que acompanhamos foi uma transmissão em multitelas, com diversas perspectivas de câmeras captadas em diferentes palcos da cidade, intervenções ao vivo de casa pela equipe, comentários dos espectadores e diálogos que ecoavam na tela:

“ELA: vamo analisar o corpo MASCULINO, só pra variar/ louisepierosanELA: Violência doméstica dispara na quarentena/ Foto do perfil de adrimarchiori/ Foto do perfil de viaexpressacoletivoteatral/ Foto do perfil de gustavosusin/ gustavosusinELE: suicidio também. “goetheinstitut_portoalegre · FIXADO Feminicídio mata 12 mulheres por dia na América Latina.” É de outra ordem essa encenação e eles compreenderam isso.

A live se fez como uma inteligente performance virtual da encenação. Esse entendimento criou um resultado que se estabeleceu um efetivo exercício cênico com momentos como o da aceleração possível da cena (quem numa pensou em passar adiante um trecho que assistia ao vivo?) ou ainda quando parece o aviso da classificação etária 14 anos que aparecia enquanto Ela temperava o corpo dele em cena estabelecia uma outra dramaturgia e o Grupo Jogo se jogou nesse jogo, sem medo e com competência para isso. Até mesmo passando o chapéu, on line”, para contribuições.

Contudo ainda se tem aspectos a serem consideramos como um delay da minha o internet (ainda uma pedra no sapato para essas transmissões), que travou em dois momentos, mas coisa a se lidar em tempos tecnológicos. Assim como a nítida flutuação de um percentual de espectadores durante a transmissão (arrisco 20%) e o espaço para os comentários via celular que concorrem com as cenas diferentemente de quem assiste pelo computador.

Bom ver que a cena tem produções entendendo que não é só migrar para o suporte virtual, mas reconhecer que é um outro modo de vivenciar esse jogo.

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