Os olhos vêem mas tá míope o coração: a hora e a vez de Suely Machado

Das gratificantes surpresas que todo esse contexto on-line nos trouxe, garimpo aqui a sútil e comovente performance Projetando Memórias, que a coreógrafa mineira Suley Machado nos presenteou no dia 8 de setembro na programação do #emcasacomosesc.

Tudo tem início com aquele corpo de mulher em seu quarto, partilhando uma intimidade entre travesseiros e espelhos. Cada gesto parecendo revirar gavetas e trazer histórias pessoais, mas tão pungentes e humanas que dissolvem na gente a distância de quem observa apenas e nos convida a estar junto, a dividir dores e sorrisos, porque faz deles tudo que meio aparentado a nós. A cada pequena sequência coreográfica simples e delicada, vamos nos tornando parte disso tudo, como um membro da família ou um amigo confidente. Suely é de uma generosidade na sua presença, sem afetações sem maneirismos, que nos acolhe e nos coloca lado a lado.

E giramos com ela, sobressaltamos com ela, desequilibramos, com ela, caíamos e levantamos come ela. E assim vai se desenhando uma dramaturgia poderosa e sincera que nos conduz. Num exercício que dilui fronteiras, eu a assistia parecendo acompanhar uma grande dama da teledramaturgia ou cinema que nos cala com um olhar, com lábio que move sem força pra pronunciar e vai nos dizendo tudo. Fui me sentindo como nos grandes filmes e peças que me envolveram de tal forma que a gente teme o fim, a quebra dessa ligação tão poderosa.

Que orgulho de ver em dança essa potência que não se impõe, mas que vai pedindo licença, para se estabelecer grandiosa na sua capacidade de estar e de nos afetar. Coisa mais preciosa ver a maturidade e sabedoria de um corpo, de uma artista que se permite a serenidade e faz dela eloquência, humor refinado, clamor político, luta aguerrida, deboche, escracho, contundência. Mulher, mãe, amante, irmã, artista, poeta, guerreira, bailarina.

E o corpo ganha voz e desafia as palavras. E e elas reverberam. “Ir e vir e abandonar formas”. E o corpo sofre e ri. “Corpo tornado margem apesar do tufão”. O corpo ganha e se faz canção. E a casa é preenchida de bailes, melodias, versos, declarações, confidências. É do corpo que tudo brota sem medo de suas idiossincrasias. Por vezes frágil, por vezes forte, por vezes parecendo desistir, por vezes resiliente, por vezes acuado, por vezes dono de si.

E Suely nesse exercício mágico e humano de ser ela e muitas vai afirmando que se pode ser e sem limites, mesmo quando assim confinados, mas esticando os fios que nos unem. Deveria ser obrigatório assistir a essa performance de Suely, como ler Machado de Assis ou Adélia Prado, pelo menos uma vez na vida. Como ecoam os versos da canção de Lula Ribeiro, seu companheiro de vida e arte: “os olhos vêem mas tá míope o coração”. O drama desse momento que nos angustia ganha o corpo/lente de Suely que nos permite ver o que ainda está e estará ali, aquilo que nos faz humanos e irmanados. Gratidão e evoé!

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