Stupid Pointless Annoying Messages ou as (in) desejadas mensagens dançantes do Coletivo Moebius

Fazer um bom espetáculo é sempre um desafio. Fazer um bom espetáculo virtual em tempos de distanciamento social é um desafio e tanto. Um desafio que o Coletivo Moebius encarou e superou. Pode ser um spam é um espetáculo que em nada fica devendo a produções para palco. É uma daquelas obras para entrar na lista das encenações que vão marcar a história da dança de Porto Alegre. E isso não apenas porque se enquadrou nas alternativas possíveis de produção digital, mas porque faz isso com um entendimento sensível e cuidadoso, o que resulta numa experiência envolvente, forte, inteligente e bem acabada que merece ser aplaudida em pé, mesmo que o recurso do chat não diferencie essa reverência (olha aí dica seu youtube).

E é curioso que a produção foi contemplada no edital do FUMPROARTE em 2016 e só agora, depois de 5 anos, recebeu os recursos para poder ser viabilizada. O que talvez, por ironia, tenha deixado a obra mais atual do que já era e com uma acertada capacidade de traduzir/refletir o contexto que atravessamos nas tensões e complexidades da relação corpo, tecnologia e informação. Aliás, o termo spam, vem de duas expressão na língua inglesa Stupid Pointless Annoying Message ou Sending and Posting Advertisement in Mass. Em ambas as expressões a sinalização da profusão de mensagens nem sempre desejadas. E afinal quais mensagens nesse mundo virtual são desejadas ou indesejadas? O título já coloca essa indagação em suspensão, pois pode ou não ser um spam. Como saber… Na dúvida, muitas vezes a curiosidade vence e o que não era esperado até pode ser acolhido. O fato é que as mensagens não param de chegar e se multiplicar virtualmente a toda hora e lugar. É dessa afetação que a obra se faz, nesse corpo atravessado ou em vão tentando desviar de tantas interpelações.

O uso da tecnologia na performance portanto não é apenas uma necessidade inevitável das contingências de teatro fechados, é o suporte que sustenta, dá coerência a essa dança de telas simultâneas, de grande closes, de corpos que dançam para a câmera, que sabem da lógica dessa modalidade de relação e brinca ao mesmo tempo que o faz com qualidade. Ao invés de lamentar pela impossibilidade da presença no espectador no palco, ao contrário, tira proveito dessa condição. E para fazer isso entende que não é apenas introduzir o aparato tecnológico, mas que essa nova condição exige estudo dessa outra espacialidade, dessa outra temporalidade, dessa outra forma de afetação, de vínculo.

E é assim que a cenografia de Rodrigo Shalako constrói esses cubículos plastificados que ao mesmo tempo que remetem a um futurismo apocalítico, ganham um contorno de uma vida enjambrada, como que jogado numa gambiarra de fios e cabos que se emaranham e emaranham esses corpos que por ali habitam. Uma redoma translúcida que mais expões do que protege, assim como os figurinos de Janaina Ferra. Enfim, corpos fragilmente embalados, uma arena em que se embatem essas criaturas em busca de algum alento. Os vídeos criados por Paula Pinheiro e a edição estabelecem um ritmo e tempo na medida certa para sustentar esse universo.

E que corpos. Há um sutil e bem elaborado trabalho corporal do elenco em cada estranheza de configuração, em cada demora do movimento ou abruta mudança de rota e direção. A carpintaria coreográfica que contou com colaboração de Douglas Jung constrói e descontrói o tempo todo essas “tecnocarcaças” dançantes, numa dramaturgia bem tecida. Esses corpos que se exibem num ritual melancólico e por vezes desesperado, mas que vai, ao invés de desumanizá-los, aproximando-os da gente, como projeções de nosso eu, esfacelados. E assim acompanhamos esses mosaicos quase expressionistas de cenas desenhadas com a luz caustrofobicamente sedutora de Carol Zimmer, que cria atmosferas nas quais esses corpos rastejam, se contorcem, cavam espaços onde parece que espaço não há mais.

Renata Stein, Patricia Nardelli, Luiza Fischer, Sahaj e Prya Mariana Konrad formam o elenco que dá conta do recado abrindo espaço para as singularidades individuais e conseguindo estabelecer uma coesão a esse coletivo de corpos dançantes que tremem, deambulam, sustentam-se em equilíbrios precários. Um conjunto afinado disposto a desafinar junto nesses rascunhos humanos com os quais também nos identificamos na suas precariedades, no seu sufoco, na sua potência vital de mesmo assim seguir e até sorrir.

E há ainda os esquemas computadorizados de movimentação coreográfica. Como espectros desses corpos digitais. e uma trilha de Vitorio Azevedo por sua vez é agoniante, eletrônica, serializada, minimalista. Quase uma metáfora dos dias que se arrastam em looping sem fim. Um tempo que passa, mas parece não avançar. E assim a obra constrói seu universo proprio e nos coloca nele. O lado de cá, de quem assiste, parece uma extensão dessas sensações que encontram pontos de convergência.

Uma produção caprichada de Ana Paula Reis que afirma o Coletivo Moebius como um núcleo de excelência artística, mas mais do que isso, uma reunião de artistas dispostos a estudar, pesquisar, arriscar e encontrar sua identidade estética. E com isso fazer um exercício cênico bem humorado, irônico, político, provocativo na medida certa. Alguns dirão que é um espetáculo digno do primeiro mundo. Eu diria um espetáculo digno do nosso terceiro mundo, capaz de dar espaço e produzir uma arte tão coerente com seu tempo, sem fugir nem negar as contradições, conflitos e utopias ainda possíveis. O Coletivo Moebius formula bem suas mensagens, muitas delas sorrateiramente desejadas por nós ainda que nos atrapalhando no profusão de informação a que estamos submetidos quase sem escolha. Aguardamos ansiosos novas temporadas.

Ficha Técnica:
Concepção e direção: Coletivo Moebius
Assistência coreográfica: Douglas Jung
Elenco: Luíza Fischer, Patrícia Nardelli, Priya Mariana Konrad, Renata Stein, Sahaj.
Trilha Sonora: Vitório O. Azevedo
Edição audiovisual: Hiperlinque
Iluminação: Carol Zimmer
Criação de vídeos: Paula Pinheiro
Figurino: Janaína Ferrari
Cenografia: Rodrigo Shalako
Mídia Social: Emily Blanco
Design e identidade visual: Paula Hartz
Fotografia: Gabriehl Oliveira
Técnico Audiovisual: Fresh Audiovisual
Assessoria de Imprensa: Silvia Abreu
Produção executiva: Ana Paula Reis
Apoio: Lucida Cultura, Grupo Oazes e Estúdio Amplo
Realização: FUMPROARTE

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s