Kino teatro ou quando Dionísios foi ao cinema

A Cia. Espaço em Branco acaba de realizar a temporada Temporada Janelas Criativas, que aconteceu no final de semana com três espetáculos nas suas mais recentes versões de kino-teatro “Paraíso Afogado”, “A fome” e “Tocar Paraíso”, especialmente adaptados para o vídeo e que somam características das linguagens teatral e cinematográfica. E foi uma um final de semana para lá de animador e agitado, revelando que a Cia cumpriu com deleite e extrema competência a promessa de “radicalizar ainda mais a experiência do espectador para dentro da cena”. Ainda impactado com o o saboroso, envolvente e instigante resultado. João de Ricardo e sua trupe que vem jogando gasolina na cena local, incendiaram as janelas digitais das nossa telinhas.

A primeira exibição foi ” Tocar Paraíso ” com concepção espetacular de João de Ricardo e direção audiovisual de Bruno Gularte Barreto e direção de fotografia de Bruno Polidoro. Soluções cênicas que faziam o palco comungar da linguagem audiovisual agora fornecem uma força cênica para fazer um cinema teatralmente arrebatador. De sutis ou escancaradas referências de Bergmann a Lynch, o keno teatro da Cia Espaço em Branco trafega esse trem descontrolado por enquadramentos inspirados que tanto valorizam o trabalho de atores e atrizes como imprimem uma dinâmica na edição com transições que ressignificam as cenas e a narrativa. La nave va! – diria Fellini. Essa tresloucada viagem segue nos trilhos, porque sabe por onde quer correr. Como diz um dos personagens: “já sofremos demais com a liberdade e o bem estar”. Então não melhor trafegar pelos paradoxos do viver entre o paraíso e o inferno com menos certezas, aberto aos acontecimentos. E é isso que temos, uma acontecimento cênico delicioso e provocativo no qual o time de atores e atrizes Anildo Böes, Eduardo d’Avila, Evelyn Ligocki, Fernanda Carvalho Leite e Iandra Cattani literalmente deita e rola.

E teve a claustrofobia SM (sado masoquista) de “A fome” com o tour de force da estupenda Sissi Venturini. Os enquadramentos e edição deram contornou mais abissais e cruéis a essa jornada visceral da personagem e mais uma vez afirma Sissi como uma das mais poderosas atrizes da cena atual. Ela aproveita cada possibilidade que os planos e enquadramentos lhe solicitam, joga, seduz, convoca, foge e nos em baralha num labirinto de voz e corpo. Sissi não se poupa e não nos poupa. Ainda bem. Particularmente cansado de encenações parcimoniosas. E que bom que a gente pode até dar um pause pra se recompor e seguir depois de se organizar internamente com a bagunça que ela vai fazendo dentro da gente.

E para encerrar teve “Paraíso Afogado” que se faz como uma colagem audiovisual tropicalista macunaímica que lembra a anarquia saborosa de Glauber Rocha com pitadas de delírios surrealistas na Sapucaí. Coisa boa esses trânsitos artísticos capitaneados com ousadia acertada e suprema inteligência de João de Ricardo, um encanador que vem afirmando as fronteiras das artes e da vida estão aí para serem desafiadas. Tudo orquestrado com eficiência desde a edição e desenho de som de Deni Roitman e a montagem de Ana Girardello, os After Effects de Lucifer Kabra e a colaboração audiovisual de Bruno Gularte Barreto.

Esses acertos todos não nascem à toa, pois João de Ricardo já vinha em sua trajetória desafiando rótulos e fronteiras entre as artes e se valendo da dança, da cantoria, do cinema, das artes visuais, do carnaval em suas produções de palco. Por isso esse possível deslocamento para um kino teatro não parece um deslocamento, mas só uma ampliação de perspectiva de artes integrativas, para qual o exercício exige saber do que cada uma tem a oferecer e a Cia Espaço em Branco mostrou que entende do riscado, como diria minha sábia avó.

Depois fiquei muito pensando ( o que toda encenação deveria promover) num russo que muito me interessa Mikhail Bakhtin. Pois essas encenações parecem traduzir alguns conceitos que a ele eram caros como carnavalização, polifonia e dialogismo. A Cia em Branco consegue isso, lidar com as muitas vozes, até as que nos assombram e dar realmente voz a tudo que ecoa ao nosso redor e nos coloca na avenida mesmo quando afundados na poltrona do teatro ou no sofá da sala em plena pandemia. impossível não recordar mo meu tcc lá de 1993, intitulado Dionísios vai ao cinema. Evoé! Porque Dionísios, aquele deus estrangeiro, não ia ficar preso, limitadinho ao seu confortável território, e ia sair sambando por entre as fronteiras possíveis, porque o teatro está onde quer que esse(s) corpo(s) forniquem na acomodação das certezas do mundo.

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