Cartas para uma Extraterrestre: para vagar pelo espaço com o corpo que habita

Num agosto de 1960 era lançado em órbita o primeiro satélite para comunicação, o Echo 1. E nesse agosto de 2022 escrevo sobre uma performance que sintonizou corpos pós pandemia, questionando as mensagens que enviaríamos a uma habitante de outro planeta. Cartas para uma extraterrestre teve sua estreia em julho no atelier Museu do Trabalho e se revela como uma inquietante e bem alinhavada produção que traz o butô japonês como estruturante de sua criação, problematizando o desafiador momento atual de cada um e de todes enquanto humanidade nesse nosso planeta que habitamos.

A performance solo de dança-teatro coloca o bailarino/ator Eduardo Schmidt vulnerável aos nossos pés. A pequena arena ao seu redor nos faz próximos e um tanto cúmplices. E é assim que vamos acompanhando as metamorfoses de um corpo que se arrasta, se contorce, desliza, se estrutura e desestrutura, que revela sua força, sua enérgica mobilização e suas suaves pausas e suspensões. Vai se constituindo uma dramaturgia de estados corporais que denunciam a tudo que estamos expostos nesse planeta que nos dá, mas também nos tira o chão, o ar, a esperança. Isso só é possível pois temos um intérprete que não mede a entrega. Ele mergulha fundo e revela domínio e expressividade capaz de emprestar seu repertório pessoal às proposições da direção de Leonardo Jorgelewicz e os sábios ensinamentos de Ana Medeiros e Nishi Nishiyama.


Tudo isso vai sendo dosado com textos que formam um tecido provocativo, poético, crítico, sensível e inteligente. E mais que isso, polifônico. São muitas vozes que se complementam, se cruzam, se mesclam. Thiago Cohen, Sílvia Góes, Rafael Bricoli, Hiroshi Nishiyama, Leonardo Jorgelewicz, Laura Backes, Ketti Maria, Eduardo Schmidt. e assim ouvimos: “Querido extraterrestre, por cá a barbárie é tanta q ando com vergonha da vida diante das delicadezas da morte”. Ou ainda “Lua lua lua”, sussurra Caetano Veloso. Escutamos e de alguma forma também formulamos nossas possíveis mensagens em convergência ou combinação com o que vai sendo pronunciado.


A montagem acerta na sua sobriedade e até aspereza que expõe. E talvez por isso, o que mereceria uma devida revisão é a iluminação que parece ter ficado no meio do caminho. Nem devidamente cênica capaz de envolver gestos e corpo em plasticidades que se esboçam, nem optando por uma crua lâmpada trêmula de algum quartinho do nosso mais precário recinto interior. Mas um detalhe que não compromete, inclusive porque assisti a estreia, o nascimento da obra, que com certeza irá encontrando o devido tom para potencializar o discurso e as cuidadas escolhas.

Por fim, temos um exercício raro que consegue mexer na linguagem que o butô forjou, trazendo para o contexto de um Brasil atual. Assim, encontra seu próprio modo de beber nessa tradição ao mesmo tempo que atualiza e ritualiza com uma assinatura estética, ética e política. O butô sempre me despertou especial interesse. Mais do que uma técnica de dança, como uma filosofia do corpo que Tatsumi Hijikata fez emergir num Japão do final da década de 1950. Uma arte que capaz de expor a delicadeza e o grotesco, a vitalidade e a precariedade dos corpos, as feridas e a decadência da sociedade. E Cartas para uma extraterreste faz esse difícil e necessário exercício com bastante segurança e firmeza. E curioso que quando nos damos conta, vivenciamos uma longínqua e íntima viagem pelo espaço. Um espaço que é cósmico e galático, mas que também é dessa imensidão de dentro da gente. A performance faz do corpo o meio desse percurso o qual percorremos com nosso corpo vagando por esse espaço que a arte aproxima. E é muito bom ver uma montagem assim na produção local. Sigo com as imagens geradas, as sutilezas desenhadas, as angústias partilhadas e com o meu envelope que me foi entregue na entrada e que deixei junto dos livros ao lado da cama. Vez que outra ecoa uma possível mensagem que gostaria de mandar para algum lugar desse universo. Alô alô, aqui é da Terra.

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