Festival de Artes Cênicas de São Jerônimo: quem sai ganhando é a cultura e sua comunidade

Quando fui convidado em 2017 para organizar o júri que avaliaria as apresentações da Gincana de São Jerônimo fui sabendo pouco do que era e o que acontecia. Ao acompanhar pela primeira vez fiquei arrebatado pela qualidade das produções em cena e tenho voltado anualmente nessa função, buscando qualificar a avaliação das produções realizadas. E nessa edição pós pandemia não foi diferente. E lá estava eu atravessando a noite fria até de madrugada para acompanhar as apresentações e novamente ser surpreendido com espetáculos de extrema qualidade que exatamente por isso me parece que colocam alguns desafios e reflexões que precisam e merecem ser feitas para além da disputa entre as equipes e para consolidação de uma produção que pode e merece mais de uma noite de aplausos e notas.

Para situar melhor que não teve oportunidade de conferir, a Gincana Cultural de São Jerônimo acontece no mês de Setembro e movimenta toda a cidade. Considerada por muitos a maior Gincana Cultural do estado do RS, iniciou em 1983 e atualmente conta com a participação de quatro equipes: Equi Medonhos, Equipe Águia de Fogo, Equi Poupança e Equipe Força Shalom-Kamikaze (Força SK). Estas equipes todas são filiadas à Liga Independente das Equipes da Gincana Cultural de São Jerônimo, que é responsável pelo evento. Dentro da gincana, ocorre o Festival de Artes Cênicas, que é um evento em que cada equipe apresenta um grande espetáculo que mistura dança e teatro, com riquíssimas produções de cenários, figurinos, maquiagens, efeitos de luz e efeitos especiais.

Nesse ano as quatro produções trouxeram temas diversos e pertinentes e alcançaram talvez seu mais elaborado nível tecnológico com recursos cenográficos, de telões, projeções e iluminação. A noite começou com a apresentação da Poupança que trouxe a figura de Mary Popppins para abordar a elaboração de uma família com a morte e saudade fazendo um tributo a vários membros da comunidade que morreram durante a pandemia da Covid 19.

A segunda a se apresentar foi Força Sk que mergulhou no universo de Carmen Miranda, especialmente na mágoa da cantora por ter sido considerada “americanizada”. Além da recuperação de fatos biográficos da vida da artista, a encenação fez um acertada releitura de suas músicas com a cultura do funk numa elaborada cena antropofágica e numa programação visual que usou na medida as imagens no telão para compor um caleidoscópio das idiossincrasias dessa figura tão importante no nosso país.

A Águia de Fogo trouxe a reflexão da importância da arte para o nossa sociedade. Um elenco afinado defendeu com garra essa bandeira em uma apresentação vigorosa que escapou do palco e invadiu a plateia. Coreografias elaboradas e bem executadas, soluções bem resolvidas e um grandioso final marcaram a performance.

Para encerrar a Medonhos foi buscar o universo da pintora Tarsila do Amaral para traçar um instigante painel da cultura e das tensões sociais que nosso país atravessa. A visualidade das obras da artistas teceu um elaborado painel visual e deu seu recado.

Em resumo, independente do resultado final, mais uma noite em que se viu foi muita criatividade e pesquisa, a qualidade da produção, o envolvimento dos integrantes na execução das coreografias, o cuidado com cada detalhe e especialmente um painel de temas que permitem ver e pensar sobre a cultura no nosso país. E com isso, saíram ganhando todos, todas e todes, pois cada equipe alcançou um nível de excelência às vezes não visto em produções da capital. O público foi brindado com performances que não ficam devendo a atrações internacionais e a arte alcança um ponto alto num município do interior pouco conhecido por essa capacidade incrível.

Então saí de lá com várias inquietações que talvez sejam só minhas, de um encenador, de um professor e pesquisador, de um produtor cultural e um gestor público, mas que não consigo deixar de partilhar. E vou listar alguns desses sete pontos de muitos para não me alongar.

  1. Com essa qualidade alcançada como não pensar que essas produções possam perdurar para além de uma única apresentação e que algum circuito possa gerar mais apresentações na cidade em outras cidades.
  2. Que o crescimento dos recursos técnicos e tecnológicos não ofusquem o que fez tudo isso nascer: o material humano e artístico em cena. Muito bacana içamentos, shows pirotécnicos, infindáveis cenários e figurinos, mudanças de imagens, projeções. Mas isso tudo não pode nem deve impedir que a gente se comova, se delicie e aprecie cada gesto, cada expressão, as elaboradas coreografias, o jogo de cena.
  3. No sentido de valorizar acima de tudo esse “humano” em cena, parece que também cabe pensar em alguma solução para o tempo extremamente longo entre uma apresentação e outra. Seja pensando em que está assistindo numa arquibancanda, para quem está avaliando por tanto tempo e especialmente para quem se apresenta quase lá pelas 2 da madrugada. Se para um profissional já seria um desafio, imagina para amadores, ansionos e nervosos esperando por tantas horas para entrar em cena
  4. Outros aspecto que sinto falta é de uma ficha técnica do elenco e da equipe. Seria tão bacana tirar do anonimato esses e essas que dão alma e corpo a essa obras.
  5. Frente a essa qualidade toda também acredito que se poderia avaliar os critérios de pontuação. “Conjunto da apresentação” coloca muitos elementos junto sem permitir separar elemento estão distintos. Por sua vez, “Tema e caracterização” também juntam dois aspectos e acabam deixando outros de lado. E “desempenho de Elenco” e ” desempenho da Rainha” não permite um pontuação para diversos aspectos desse desempenho como o coreográfico, o teatral, o individual, o conjunto. Enfim, como provocação pensar em ampliar os critérios e talvez incluir pesquisa, concepção, roteiro, coreografia, iluminação, figurinos, cenografia, trilha sonora, interpretação, integração do elenco, ou outros que possa não ter cogitado
  6. Nesse contexto talvez seja a hora de pensar em como manter um clima saudável de disputa entre as equipes para que essa notável produção não termine na discussão de quem ganhou um décimo a mais ou menos nas notas dos jurados, afinal todas já chegaram num patamar que isso devia ser superado frente ao resultado esplendoroso em cena. Nesse sentido seria especialmente imperativo também que não se constranja a comissão julgadora formada do artistas e pesquisadores de consolidada trajetória e formação que lá estão para avaliar de maneira ética e qualificada as apresentações e que nos últimos anos vem permitindo uma pluralidade de olhares que não busca uma unanimidade mas sim um resultado que é a somatória de diferentes perspectivas. Posturas ameaçadoras e de vigilância exacerbada em nada contribuem para uma atmosfera de tranquilidade e confiança para que uma plena avaliação possa ser realizada.
  7. Não menos importante, para além, da apresentação incluo ainda a necessidade de um interesse dos órgãos da cultura do nosso Estado para pensar em estratégias de incentivo, visibilidade e difusão dessa produção que supera até mesmo produções tradicionais de festas temáticas natalinas por exemplo.

Enfim, saí esse ano com essas reflexões, que como disse talvez possam ser só minhas e que não interessem a boa parte das equipes além de seus núcleos artísticos. Mas ainda como otimista e idealista que sou, tenho um esperança que possa contribuir de alguma forma se não na totalidade em alguns desses desafios que se colocam, mesmo que me posicionar implique em não mais ser convidado a retornar ou mesmo eu não queira retornar para ver que nada parece querer se modificar efetivamente. Já participei de eventos pelo país em pequenos e em grande municípios, com grandes ou pequenos recursos e sigo fascinado com a capacidade de invenção, de transformação e de envolvimento que a arte promove. Não me interesso por participar apenas cumprindo minhas obrigações e indo embora. Carrego tudo isso que me afeta e torço para que cada vez mais essas ações se potencializem sem perder aquela valiosa chama que fez e faz a diferença: a de acreditar que vale apostar nessa fabulosa gente que faz arte e com ela constrói novas possibilidade de pensar um mundo mais humano, diverso e solidário talvez. Utopias? talvez também, mas tenho apostado nelas e senti elas vivas naquele Ginásio em São Jerônimo mais uma vez.

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Um comentário sobre “Festival de Artes Cênicas de São Jerônimo: quem sai ganhando é a cultura e sua comunidade

  1. Ótimos relato e reflexão, Airton. Que evento surpreendente. Entre tuas inquietações, somaria a de que um festival com essa dimensão e pretensão não seja mais conhecido. Eu, mesmo, não conhecia. Assisti ao vídeo do Águia de Fogo em 2019 no YouTube e é realmente uma surpresa. Que bom q o cena.txt me alertou

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