Dança, consciência negra e educação: as (boas) lições no litoral norte

Manhã ensolarada de um sábado com calor e mar de águas claras. Dia perfeito para curtir a beira mar e o que se viu foi um ginásio cheio de estudantes para apresentar e ver danças e na véspera do dia da Consciência Negra. Danças que tratavam da diversidade e identidade cultural do nosso país e da região. Foi assim o 3° Festival Escolar de Dança promovido peal Prefeitura de Tramandaí, por meio da Secretaria de Educação e Cultura no sábado, dia 19 de novembro, no Centro de Esportes, Cultura e Lazer Afonso Penna Kury – Ginásio da Nova Tramandaí. O evento teve como tema as danças Africanas, Afro-Brasileiras e Indígenas e contou com a participação de onze grupos de dança de escolas municipais e estaduais. Estive no júri junto com os artista/educadores mestre Ivan Therra, Lizzi Barsosa, Tati Missel, Juliana Ludwig e e a empresária Juliane Dullius.

Foi difícil avaliar trabalhos tão diferentes e que mobilizaram um visível trabalho de criação e pesquisa. Independentemente do resultado dos vencedores, quem saiu ganhando foi a educação e a cultura da cidade que revelou talentos de quem dançou e de quem coreografou e do êxito de uma ação pública sensível e transformadora. Ver o maculelê, o maçambique, a capoeira, o candomblé e a dança afro misturada com a dança contemporânea e pop foi gratificante e inspirador. Os trabalhos mostraram a valorização de expressões regionais afrobrasileiras, bem como os novos arranjos das danças e verdadeiros manifestos nos corpos que dançavam. Em cena, estava um painel da diversidade e da capacidade da cultura unir coisas tão diferentes. Um exercício de alteridade mostrando que é possível sim conviver com as diferenças, respeitá-las. Uma aula de arte, de filosofia, de história, de ciências (pois são corpos da biologia sujeitos às leis da física e que esses jovens bailarinos e bailarinas entendem como ninguém), de vida, de educação que entende que o ensino não está só dentro da sala de aula.

Importante nominar essas educadoras e esses educadores, que dentro das aulas de Educação Física conseguem desenvolver um trabalho tão qualificado em dança com faixas etárias tão distintas e contextos tão diversos:

EEEM Assis Brasil
Música: Baianá – Barbatuques/ Boa Noite (Maculelê) com grimas.
Professor (a) responsável: Prof. Maria Conceição Santos (Prof Preta).

EMEF Erineo Rapaki
Música: Ela é Oya
Professor (a) responsável: Prof. Elenita Bersagui e Juliana Terra

EMEF General Luiz Dêntice
Música: Mãe D’água
Professor (a) responsável: Prof. Maurício Gamarra

EMEF Jorge Enéas Sperb
Música: Stand Up, Lei Áurea e Berimbau Metalizado.
Professor (a) responsável: Prof. Fabynha Brasil

EMEF Nossa Senhora das Dores
Música: Dança Capoeira de Angola
Professor (a) responsável: Prof. Silvia Silveira

EMEF Thomaz José Luiz Osório
Música: Pérola Negra
Professor (a) responsável: Prof. Juliana Reis

EMEF Indianópolis
Música: Maçambique de branco
Professor (a) responsável: Prof. Carine

EMEF Marechal Castelo Branco
Música: Jerusalema
Professor (a) responsável: Prof. Vanessa Pulls e Prof. Caroline Guimarães

EMEF Cândido Osório da Rosa
Música: Dandalunda
Professor (a) responsável: Prof. Lausane Oliveira

EMEF São Francisco de Assis
Música: Pontos de Iemanjá
Professor (a) responsável: Prof. Cintia, Prof. Meriele, Prof. Maria do Carmo, prof. Gilce e diretora
prof. Denise Machado

Foi tudo tão especial que acredito ter espaço inclusive para pensar no futuro do evento. Entendo o quanto os festivais competitivos servem para motivar a participação e envolvimento dos estudantes, mas talvez precisemos avançar para mostras não-competitivas, especialmente ao envolver crianças. Destacar coreografias, pesquisa, conjunto, figurinos, bailarina, bailarino, criatividade, qualidade técnica, relevância social do tema apresentado, entre outros possam servir mais ao fim educativo do que atribuir notas e primeiro, segundo e terceiro lugar. Todos foram excelentes e conseguiram criar trabalhos incríveis e talvez o mais importante fosse identificar essas potencialidades.

Do mesmo modo, percebemos que a dança enquanto componente do ensino de artes precisa estar mais presente não apenas na educação física, uma batalha que enfrenta muitos obstáculos, mas que precisa ser gradualmente e efetivamente enfrentada. Afinal, quando não tivermos mais professores de educação física com conhecimento e paixão pela dança, a dança pode estar condenada a desaparecer no ensino de crianças e jovens. E um evento como esse revela o prejuízo que isso pode representar.

O Departamento Pedagógico da SMEC destacava já no seu material de divulgação que o Ensino da História e Cultura Africana, Afro-Brasileira e Indígena e as Relações Étnico-Raciais na Educação Básica possuem marcos legais importantes no país, que incluem nos currículos escolares estes assuntos, tanto por força de legislações a nível nacional, estadual, como municipal. Mas, mais do que a força da lei que estabelece a necessidade de tais abordagens no currículo escolar, entendemos que é de extrema importância desenvolver ações que valorizem a ancestralidade do povo brasileiro, a sua riqueza cultural e artística, ampliando o repertório de conhecimentos e vivências dos alunos. Louvável e e necessária inciativa.

Parabéns à equipe que também precisa ser citada por ter arregaçado as mangas e feito acontecer esse importante evento:

Secretária de Educação: Alvanira Ferri Gamba
Vice-Prefeito: Flavio Corso
Coordenador chefe: Andrios Bemfica
Coordenadora pedagógica da educação física: Francieli Valim
Coordenadora: Amanda Fernandes
Central de vagas: Isabel Becker

Já na espera da próxima edição, pois nesta saímos todos vencedores e vencedoras, quem estava em cena e quem estava na plateia!!!

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3 comentários sobre “Dança, consciência negra e educação: as (boas) lições no litoral norte

  1. Uma alegria poder encontrar as amigas e amigos em um ambiente de dança, de movimento, de construção identificadas com as culturas populares de raiz africana e indígena. Uma maravilha participar deste momento de criação de caminhos diversos e possíveis. Muito bom!

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  2. Caro Airton. Vossas considerações expressam exatamente o que essa maravilhosa equipe da Smec de Tramandaí nós apresentou. Que orgulho participar de um momento mágico. Gratidão pela presença e apoio à nossa cultura.
    Flavinho.

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