Quando a dança na primeira infância sobe no palco e mostra que a arte transforma e forma (e muito)

Como alertava o grande professor e pesquisador Roberto Pereira: “Dança não é coreografia”. E quando a gente vê o resultado de alguns trabalhos com crianças da primeira infância esse alerta fica evidente, não por desprezar a coreografia, mas para mostrar que aquilo que a dança promove vai muito além de ensinar passos na música. E foi essa a preciosa lição da Escola Municipal de Ensino Infantil Valneri Antunes na suas apresentações na sala Àlvaro Moreyra, dia 8 de novembro, no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues. As diversas turmas e a comunidade fizeram do palco um espaço lúdico e contagiante, coordenadas pelas professoras Joseane Paniz e Luciana Soares, incansáveis, sensíveis e determinadas e apoio do Centro Municipal de Dança, da Secretaria Municipal da Cultura e Economia Criativa..

Num texto que escrevi há uma década eu pontuava alguns questões da dança para infância e o último ponto que destacava era:

” 7 – O palco não pode ser um play-ground dançante? Sim, parece que um surto de seriedade absurda acomete a apresentação das crianças. Raramente vi um espaço real para o tão repetido termo que ecoa em todo trabalho com o público infantil, o “lúdico”, aparecer em cena. Porque se já se conta com eventuais atrapalhações, por que não permitir que a apresentação tenha momentos das crianças se divertirem em cena, com espaço que elas dominam, às vezes, melhor que nós: o jogo. Isso não seria dança? Ou não seria uma dança digna de ser mostrada? Quando isso acontece é uma delícia, porque as crianças ao dançarem, saboreiam a apresentação como se estivessem no “recreio” e não cumprindo um enfadonho dever de casa.” http://beta.idanca.net/danca-para-criancas-ou-o-jogo-dos-sete-erros-por-airton-tomazzoni/

E foi isso que vi em cena no trabalho da EMEI: crianças que se permitiam descobrir e se aventurar com dança naquele espaço, aliás, por não ser um palco italiano, permitia a correria e a interação sem maiores riscos e aproximava a plateia. Os gestos eram simples e adequados às diferentes faixas etárias. Educadores e alunos partilhavam de cada cena ao som de Leozinho, de Caetano Veloso ou outro hit que revelava talentos já ali anunciados. Era uma rede de colaboração tão preciosa e um resultado tão divertido e afetuoso que naquela tarde não havia como não se emocionar e se envolver. Uma mãe deficiente visual escutavam a descrição do que acontecia em cena e com a música e o burburinho aplaudia e abraçava seu filho depois da apresentação. Outro aluno se desgarrou do grupo e fez sua própria trajetória coreográfica. Outra decidiu terminar a coreografia antes do tempo e ainda outro decidiu entrar na coreografia que não era a sua. E muitos e muitas que executavam movimentos em harmonia no compasso das músicas. Todos e todas juntos num grande espetáculo que não desprezou nenhum participante, do modo que fosse.E talvez isso seja uma das coisas mais importantes no mundo em que vivemos com seus desafios de convivência e imaginação.

Que a Secretaria Municipal da Educação (SMED) também passe a incluir a dança na formação do ensino infantil. Já são muitos os estudos que apontam os benefícios motores, cognitivos, emocionais, de socialização que a dança promove. Muito se fala agora inclusive do que a dança sempre entendeu: de desenvolver habilidades socioemocionas (as agora chamadas soft kills, determinantes para desenvolvimento de outras habilidades como as de cálculo e de linguagem), dentre elas a criatividade, adaptabilidade, colaboração, empatia, inteligência emocional.

Não podemos nem devemos ficar esperando o momento em que alunos e alunas estejam prontos e prontas para reproduzir sequencias de movimento, mas sim aproveitar dessa disponibilidade lúdica de um corpo em formação que se potencializa, que aprende, que se reconhece e reconhece os demais e de ainda por cima mobiliza o envolvimento das famílias que sorriem, se emocionam e também entram nessa dança para a qual boa parte se acha incapaz. Não podemos mais subtrair essa experiência desses pequenos e dessas pequenas, nem da nossa sociedade, mas infelizmente ainda experiências como essa são exceção na rede municipal. Dança, afinal pode ser coreografia, mas não apenas isso e os pequenos e pequenas sabem muito bem disso e se deixarmos nos permitem essa lição.

Airton Tomazzoni, Doutor em Educação/ FACED UFRGS, coreógrafo e diretor do Centro Municipal de Dança SMCEC

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