O balé que eu vejo

O sentar em poltrona confortável de macio veludo à espera do momento em que meus olhos seriam inundados de surpresa e a boca se abriria em êxtase foi antecedido por inúmeras mensagens por aí e acolá de uma comunidade artística que se organizava pelos grupos de whatsapp entre caronas e listas de ingresso para ver mais uma vez a “a Bahia tomar Porto Alegre”.
O Balé Folclórico da Bahia carrega o título de única companhia de dança folclórica profissional do Brasil, uma condecoração que grita em letras maiúsculas o trabalho e dedicação de mais de três décadas de formação técnica e competência, ao passo que aponta entrelinhas de reflexões sobre os desafios e obstáculos de um grupo folclórico conquistar o reconhecimento público, resistindo e se reinventando por tanto tempo.
Mas o Balé não é só uma companhia e nem só balé. A primeiro começar pelo nome, desse balé que não tem dois L. Balé que não é ballet. Balé que é folclore e que por si só já chega pra uns como o pé na porta de quem vai entrar e para tantos outros como um aviso de que só se pisa em chão que se assentou.
Afinal, 37 anos não são 37 dias e cada escolha acertada desse projeto que não é somente artístico, mas de patrimônio vivo, cultural e imemorial do país, reforça identidades. Tais faces em plural, porque dizem respeito aos prismas brasileiros, afrodiaspóricos, baianos. Sendo nome aquilo que em inúmeras esferas define quem se é. Aqui, uma apropriação linguística que revela não apenas uma escolha aportuguesada do termoballet (em itálico e coincidência ou não, com origem italiana e francesa), mas uma firmeza cultural de origens, pois balé também corresponde às simbologias de matriz africana. Por isso, vejo no palco o resultado de uma formação que transcende a técnica, porque bailarino ali dança, interpreta, canta, atua, dos tantos fazeres diversais da negritude, que também aprende dança clássica, moderna e contemporânea. Gingando no solo de dois L para formar coisa terceira, balé de pé descalço, balé que reverbera Mercedes Baptista e Iara Deodoro.
Assim ajeito o corpo cansado em na poltrona macia, para sentir na pele mais uma vez o que me arrepiou a alma quando estive em Salvador no ano passado, subindo o Pelourinho para transbordar em lágrimas de emoção ao assistir o espetáculo permanente com capoeira, maculelê e samba de roda e quase botar os bofes pra fora em aula com a Nildinha Fonseca. Me recosto a vibrar os sentidos, do bater de um coração de saudades que explode em ansiedade no primeiro sinal.
Quando as cortinas se abrem e a sineta toca, as sombras cobertas por lençóis ecoam um bater de palmas. O coro cantado por vozes femininas sincroniza aos movimentos do tecido branco que ora cobre o corpo, ora se solidifica no fundo onde o colorido se mescla em ondulações.
De contrações de tronco, batidas e giros, o telão se mistura ao andar em nuvens de passado por onde aparecem mulheres negras eternizadas em imagem preto e branco na tela e nos ventres coloridos que carregam futuro no palco. É coreografia de Nildinha, e por isso, tão logo os ombros relaxam de encantamento da força da música, sou arrematada pela mudança.
Os lençóis e seus corpos desaparecem dando lugar para a potência de braços e gritos, no impacto de luta e alegria, de pulos que impulsionam pés que alcançam acima do ombro. Força e sincronia se enfrentam num jogo de burburinhos e solfejos que beiram o caos até que as águas sejam ouvidas. Calmaria, aberturas, leveza de dedos e mãos que se abrem junto de colos que oscilam em ondas. Que também se quebram para a lâmina que corta o ar em deslocamentos, numa grande gira que apresenta um movimento que se tiver nome, desconheço, mas que ao meu sacudir de ombros só pode ser movimento de gargalhada. De um braço que para em linha reta, uma, duas vezes e que depois se joga pra frente pra cair pra trás. No gargalhar, parte do grupo de mulheres desaparece dando lugar a pirâmides, linhas e ângulos feminino e masculino. Cacofonia, gritaria, cotovelos de terreno fertil, cabeças em níveis, desníveis, subidas, descidas, hipnotizando meu olhar que só lembrei como se respira quando as luzes se apagaram. Okan, que significa coração em Yorubá, coreografia daquela que a cada reencontro faz meu peito desfalecer em conexão.
Em 2-3-8, de Slim Mello, a festa e a rua. Certa nostalgia se revela no cotidiano universal periferia, nas imagens que passeiam em ângulo primeiro por becos e vielas até o Pelourinho. “Me sinto contente” repete a música que desperta piruetas e ranhuras modernas, com quebras e descontinuidades de movimentos, encruzilhando cores, texturas, sabores e estampas, num quadro espontâneo que batuca um molho de dança moderna, afro e jazz, trazendo frescor e originalidade.
Bolero, de Carlos Durval, está trançada nos acordes de Ravel. Esse Ravel a quem reconheci oportunamente através do espetáculo, na reafirmação da relevância da companhia em ser fonte de conhecimento. Apesar de conhecer a obra de Ravel de ouvido, fui buscar entender sua relação no campo da dança a partir do “Balé que você não vê”, o que ressoou ironicamente em meu desconhecimento desta obra musical tida como clássica no ballet, desvelando que o balé que se vê também pode ser o ballet que não se vê, denotando o visto e o escondido e daí, novamente, neste lugar outro da arte, essa engrenagem se decodifica em terceira coisa. Nesse caminho inverso me vi mergulhada pela corporeidade coreográfica de esplendor, num solo em água e rajada, na magnitude e intensidade crescente de movimentos, numa organicidade da dança afro em mares clássicos – um suspenso no tempo metafórico de gestos grandiosos, numa crescente de magia e vigor.
Na voz potente que atravessa a alma, a alegria transbordou em Afixirê, de Rosangela Silvestre. Do yorubá, “festa da felicidade”, foi um momento final de celebração, envolvimento e sorriso. A apoteose de Afixirê traz o vigor de corpos que não cedem e não enrijecem, sentires que se regozijam no deleite de dançar a vida. Na abundância, a beleza invade o palco, nas mulheres que com seu leque balançam seus cabelos, ventres desobedientes despertam em fartura e palha da costa, de saltos e deslocamentos de pura sabedoria ancestral.
Em história contada pelo toque dos tambores, a energia se eleva nos músicos e bailarinos que em uníssono vibram e entregam sementes de bons frutos que virão. O que torna impossível continuar pensando nesta ode ao bem viver, sem destacar uma bailarina que brilhou no palco em expressividade, Janine Nascimento, meus parabéns por ser a continuidade desta linda história contada pelo balé.
Termino esse olhar com sede de reencontro, em que cada ato vivenciado foi como estar diante de uma nova porta, sem saber de que formas seria brutalmente atingida. Aplaudo e saúdo a existência desta companhia e estou ansiosa pelas próximas aventuras que terei a honra de testemunhar. Tenho a certeza de que esse processo é mais que assistir, o balé nos transforma por dentro, renova a esperança em todo aquele que tem no peito o sonho de arte.
As cortinas fecham e eu permaneço aqui, não mais sentada em poltrona de veludo, em uma cadeira de madeira velha que não mais se vê, nascida de uma dança que não mais se esconde. Nesta diáspora, de raízes em conexão de África e da Bahia pra cá, celebro o balé, com o sangue a retumbar afixirê em promessa de futuro.
Por Juliane Vicente, integrante do Coletivo Crítica Expandida de Cena