O tempo das coisas é estranho e enigmático. Em se tratando de uma gema, por exemplo, pode levar apenas um dia para se formar, no processo dos ovos, ou milhares de anos, no processo das pedras preciosas. E ver o nascimento de uma nova Cia de dança é se colocar diante desses processos. Algo tão recente que brota à nossa frente, frágil e delicado e com capacidade de, com o tempo, sedimentar, cristalizar, brilhar. Foi nessa condição que assisti a Crowd, com direção de Dani Cézar, dia 15 de setembro, no Teatro Bruno Kiefer, marcando a estreia da Cia Gema.
E Dani Cezar começa com escolhas promissoras. Escolhe um elenco afinado e disposto a desafinar, paradoxalmente. Bruno Manganelli (Prêmio Açorianos de Dança 2023 como intérprete), Juliana Medeiros, Jade Correa e Lia Souza são intérpretes de grande domínio técnico de estilos tradicionais de dança como o jazz, o balé, as danças urbanas e que executam sua arte com maestria. Em Crowd o grupo é convocado a experimentar outras zonas, escapar de padrões estabelecidos, permitir-se o jogo cênico e, ainda que em alguns momentos não totalmente à vontade, saem-se muito bem.
É evidente a disponibilidade do elenco em se permitir e explorar para seu proprio deleite e para o de quem assiste, em que há de se destacar a versatilidade de Lia Souza. E isso é fruto de uma construção hábil de confiança constituída por Dani Cezar já nesse espetáculo de estreia, e que não é algo simples nem fácil de conseguir que aparece com nitidez com Jade Correa, já visitando outros territórios de criação na Utophia Cia de Dança, e Juliana Medeiros também. E não que se desconfiasse da capacidade do Bruno Manganelli em ir além, mas estávamos acostumados a vê-lo na sua zona de conforto e excelência. Aqui segue a excelência, mas ao mesmo tempo surgem novas paisagens corporais.
Afinal tudo pode começar com o zunir insistente e incômodo de uma mosca. E há configurações corporais estranhas, gestuais improváveis, sequências inesperadas. Ao mergulhar na temática da multidão, o espetáculo entende que esse todo é feito de muitas singularidades e da homogeneização de corpos e movimentos. Crowd nesse sentido encosta na filosofia de Antonio Negri e Michael Hardt, instigantes pensadores na tentativa de nomear e compreender as condições que envolvem a dinâmica social do século XXI. Há um comum nessa multidão, mas feito de uma multiplicidade de diferentes subjetividades. E não tem como falar disso unificando e uniformizando corpos. A cena em que Bruno vai tendo o corpo marcado por carimbos consegue uma poderosa síntese de tudo isso.
Sim, a montagem recém nasceu e vai amadurecer, e espero que na direção de fazer uma depuração do que possa estar sobrando na obra, pois de modo geral numa primeira criação costumam aparecer elementos demais, com todos os discursos que estão ansiosos por ganhar materialidade. Ou ainda materiais distintos que talvez possam apontar para uma próxima obra e que acabam surgindo ali meio deslocados, como a cena de textos que remetem às redes sociais, que talvez ali não caibam ou caibam de uma forma outra, mais distribuídos e não em bloco.
Mas tudo isso é do domínio das incongruências do tempo e do exercício de criação que exige trabalho e coragem. Tempo necessário para essa jovem Cia garimpar uma linguagem propria, sua identidade e seguir tendo coragem de fazer as escolhas certas. Pois já se anuncia como uma gema fonte de vida e de preciosidades.
Fotos: Daniela Berwanger



