Quando a dança não abandona

Adentrei o espetáculo com o começo de um poema de Manoel de Barros: “o mato tomava conta do meu abandono”. Afinal mania essa de achar que a dança tem prazo de validade. Em um cenário coberto de folhas secas, o que cresce e toma conta não é o mato do abandono, mas uma atmosfera outonal que celebra os ciclos como o das estações. Parece que acompanhamos os três intérpretes na travessia depois de invernos rigorosos, primaveras efusivas e radiantes verões. Eles agora parecem anunciar a maturidade do corpo que dança e que busca nos encontros uma poética repleta de presenças delicadas, assombrosas, imponentes, sutis. A proximidade do palco do Teatro Oficina Olga Reverbel nos faz cúmplices da jornada que MIÊDKA – uma metáfora do encontro instaura e a gente não se furta e esse tocante percurso.

O espetáculo da iN SAiO Cia. de Arte coloca juntos no palco Claudia Palma, Armando Aurich e Ana Mondini que se reúnem tendo como mote o livro “Escute as Feras”, de Nastassja Martín. A obra aborda o encontro real entre um urso e a autora. MIÊDKA é o termo usado para designar as pessoas que foram marcadas por um urso e sobreviveram ao encontro. E o trio mostra essas marcas. Eles parecem caminhar sobre suas próprias memórias. E o terreno nem sempre é plano e seguro. O andar é temerário por vezes, noutros momentos se firma para ali adiante cambalear. As passadas ora lentas, ora apressadas.

Essas memórias se expressam nos corpos e nas milhares de horas de aulas que vão sendo redimensionadas por uma sensível racionalidade, uma serena sabedoria do mover. Essas memórias estão nos corpos e na musicalidade das obras dançadas que ressoam descompassadas e harmoniosas. Essas memórias estão no familiar ruidoso do abrir e fechar das cortinas. Essas memórias estão nos corpos e nos ensaios silenciosos e laborosos de tantas décadas.

E os encontros estavam também ali não apenas em cena, mas também na plateia a qual era integrada por quem assistia pela primeira vez uma intérprete da magnitude de Ana Mondini, carregando boa parte da história da dança gaúcha. Por uma plateia que reencontrava a coreógrafa de obras como Volúpia (1988) ou a colega do Grupo Experimental de Dança (1974). Uma plateia que era apresentada a Armando Aurich. Uma plateia que reverenciava Claudia Palma. Uma plateia que mergulhava mesmo sem referências, porque as referências iam sendo estabelecidas ali, a cada instante.

Ao longo de todo o espetáculo permanecemos diante de corpos moldados pelo tempo e pelos encontros. Corpos afetados pelos gestos, pelos olhares, pelas palavras, pela devoração, pela trilha insólita de Joaquim Tomé. Tudo tecido por uma integridade inebriante, destemida até. Como anuncia Nastassja Martin: “Ele sem mim, eu sem ele: conseguir sobreviver apesar do que ficou perdido no corpo do outro; conseguir viver com aquilo que nele foi depositado”. Agora é nosso desafio também enquanto espectadores, pois abandono mais não há.

foto: Hamilton Ramos

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