
Existe uma forma amena de falar de um artista que viu sua casa alagada pela enchente e sair em um barco na escuridão de um bairro sem energia elétrica sem saber de um possível retorno? Talvez tenha, contudo o bailarino e ator Ronaldo Silveira faz a opção de uma encenação sem concessões, em que tudo que era guardado em alguma interioridade é trazido à tona, muitas vezes emergindo com violência e descontrole. Assim é Meu pé de laranja bolo, com direção e concepção de Edison Garcia, apresentado nas quintas-feiras de outubro no espaço CDEG, no bairro Menino Deus, um dos mais afetados pelas chuvas de maio de 2024 em Porto Alegre.
O tom da encenação é totalmente autobiográfico e confessional. A vivência pessoal de resgate vivenciada por ele é o mote para desvelar sua trajetória artística. Num dos momentos iniciais escutamos um lamento misto de oração e canção: “Nesta noite escura eu vou me salvar”. E daí ele navega por suas experiências na dança e no teatro. Vamos acompanhando um intérprete que percorreu uma carreira múltipla que vai desde a participação em invernadas do tradicionalismo gaúcho à atuação do Teatro Oficina, com o diretor Zé Celso Martinez Correa, da atuação na destacada cia de dança Ballet Phoenix e da atuação no carnaval de Porto Alegre.
Aí que surgem cenas que mesclam arte e vida. Vamos conhecendo a pessoa por trás do artista. O morador de Canoas, o profissional da área da estética, os dramas familiares, a homoafetividade, a religiosidade afro brasileira, os preconceitos, as vaidades, as fragilidades, os medos. Há momentos poéticos e certeiros como quando deitado no chão dança e canta uma das mais tradicionais músicas gaúchas: “Maçanico, maçanico/ Maçanico do banhado/ Quem não dança o maçanico/ Não arruma namorado”.
Vamos nos tornando cúmplices nessa jornada. Uma jornada que nem sempre é tranquila e moderada. Temos quase uma estética da convulsão, uma overdose, um regurgitar, um estremecer, uma desmedida. São gestos, palavras, canções que o intérprete sustenta por mais de uma hora. Às vezes até beirando um exagero, que entretanto se justifica na sinceridade que a obra se propõe.
Há samba-enredo, há balé e pé tentando esticar, há fragmentos literários, há diálogos com o pai, há desabafo com as intrigas na classe artística, há trechos de peças teatrais, há coreografias, há ritual aos orixás, há uma catarse. E sim há as ciladas de quem, buscando o estrelado, não se furtou a manter sua história e identidade, entre tropeços e quedas e retomada. Em cada cena, Ronaldo vai se desnudando, nessa atuação audaciosa sem temor das fragilidades como no comovente diálogo com a mãe, até o metafórico final quase vagando, nu rumo às estrelas.
Exatamente isso, um bailarino/ator desmedido, entregue, voraz e audacioso… Tem a coragem, que às vezes, não temos, só por isso já é um grande interprete…🙏🏻🌹🧍🏻💕
CurtirCurtir
O descrever de quem viu e sentiu na arte, na pele as mesmas vivências… Muito bom Airton…👏🏻💕🧍🏻
Ronaldo sempre ultrapassou a “quarta parede”…🤜🏻🧍🏻♂️
CurtirCurtir
Belas palavras sobre Meu Pé de Laranja Bolo, Airton…😘 É o Ronaldo e sua quarta parede…💕🧍🏻👏🏻
CurtirCurtir