
por Airton Tomazzoni
Fui assistir ao espetáculo Adobe, na programação do 18º Festival Palco Giratório Sesc em Porto Alegre, no Teatro Bruno Kiefer. E logo me deparei com o corpo de uma mulher negra, em seus mais de 50 anos entre uma arena de pequenas canecas de café vermelhas e distribuindo pratos carinhosamente embalados em trouxinhas de pano. E ia me perguntando sobre que dança era essa. Em cada fragmento da obra fui me desimportando em saber que dançar me era apresentado e deixando a obra me levar. Terminei íntimo da família, como visita bem acolhida na sala de casa, presenteada com histórias, afetos e um bailado único e singular.
Logo de saída a presença cênica de Luciana, me fisga. É encantador o mover despojado e pleno, que se afirma num modo peculiar e cheio de um estilo próprio do qual é dona e que divide conosco. Tão envolvente que me incomodei num primeiro momento com as projeções de vídeo, tão interessado que estava nesse ritual revestido de cotidianidade. Não queria dividir a atenção com as imagens em grande escala longe daquela presencialidade. Então eis que gradualmente fui me dando conta que Luciana estava a abrir as janelas da casa e da memória e sem se despreocupar com as lidas caseiras dos afazeres, mas também das lidas de seu corpo.
E essas histórias não chegavam só no final, quando da apresentação dos parentes, um por vez. Em cada passo, em cada gesto, em cada movimento. Vamos nos dando conta de tudo que Luciana carrega, inseparável de sua dança. Estavam ali o tio caminhoneiro, as mulheres que foram trabalhar em casas de família, o cultivo das roças, a tia que ensina a maneira menos sofrida de pentear os cachos, as receitas das tias, as andanças de Monte Alegre (MG) para Goiânia (GO), as danças e festas.
Uma performance que reverencia aos seus antepassados, sem representações e sim com apresentações. No modo que pisa no chão, como se inclina, como organiza cada objeto, como deixa o ar entrar e sair, como espia. E é assim que aceitamos o conselho de Tia Osvalda, de permitir escutar quando “o coração não está pedindo pra ir lá”. Deixei ele ir junto com Luciana e me fui bem contente e todo prosa entre rapaduras, pipocas e um gole de café, que costumo não tomar mas não ousei recusar. Saímos todos um pouco Caetanos também.