
2024 não foi um ano fácil. Nunca é para quem produz dança em Porto Alegre. Há sempre muito esforço e determinação para seguirmos. A enchente de maio, contudo nos deixou muitas incertezas da continuidade e capacidade de recomeçar com escolas, teatros e centros culturais afetados pelas águas e uma cidade se reconstruindo. Houve quem achasse que o ano já havia terminado e pouco poderia ainda nos reservar. Chegou a se cogitar cancelar o Prêmio Açorianos de Dança com temor que não haveria produções para concorrer. E no meio disso foi preciso lidar com as perdas de colegas e artistas como Iara Deodoro, Nury Salazar, Carla Vendramim e Maria Amélia Barbosa, que nos entristeceram e ao mesmo tempo nos motivaram com seu legado. Quem duvidava, teve que assistir ao esforço que se impôs trazendo um cenário com inúmeras e qualificadas produções que enquietaram, provocaram e comoveram.
https://drive.google.com/file/d/1xk0VmwuE3vV2-UBVbO6aHJdSAK7Jqvrw/view?usp=drivesdk
Tivemos o começo das celebrações dos 50 anos do Grupo Afrosul Odomodê. E não é pouca coisa manter esse trabalho inigualável de preservação e difusão da dança de matriz africana que resiste e se fortalece.
Tivemos os 70 anos do Grupo Folclórico Polônia, fundado pela Pani Janina Figurka em 03 de maio 1954 preservando suas tradições de uma cultura que se mantém viva.
Tivemos os 65 anos do Conjunto de Folclore Internacional Os Gaúchos que segue o legado de Nilva Pinto e segue atuante promovendo uma produção que resgata as danças do nosso estado e da América Latina especialmente, com excelência musical e cênica.

Tivemos os 35 anos da Muóvere com o projeto Muovere Techlab 3.5, fomentado pela Funarte e dando continuidade à pesquisa e produção contemporânea.
Tivemos a Cia Municipal de Dança de Porto Alegre comemorando uma década de sua criação e trazendo o espetáculo Coração encharcado e ainda assim, com a participação luxuosa de Carlota Albuquerque de volta à direção de dança, numa apresentação histórica no estacionamento do Teatro Renascença, local que ficou debaixo d´água em maio e se transformou num cenário pós-apocalíptico cheio de poesia e força .


Tivemos Chula com Emely Borghetti e direção de Silvia Canarim ressignificando o papel feminino na tradição gaúcha e arrebatando premiações como a de Intérprete e de espetáculo no Açorianos de Dança e no Troféu Quero-Quero/ SATED que voltou depois de quase 20 anos, realizada com o apoio financeiro da Emenda Parlamentar da deputada federal Fernanda Melchionna.

Tivemos a celebração da carreira de um ícone da cidade e da cena LBGTQIAPN+, a drag Queen Cassandra Calabouço com a irreverente e arrebatadora montagem de Onde está Cassandra? que levou o Troféu Açorianos de Elenco, Destaque artístico (Cassandra, Diego Mac e Gui Malgarizi) e produção (Giulia Baptista).

Tivemos a estréia de uma nova geração de coreógrafos com Peixes (financiamento do Fumproarte), de Camila Vergara; Crowd, De Dani Cez
ar e Sintéticos, da Uthopia Cia de Dança, liderada por Matheus Almeida de Jade Correa que receberam os prêmios Açorianos de melhor espetáculo do ano e melhor coreografia, ainda o de melhor espetáculo em votação popular.



Tivemos o Ballet da Ufrgs com duas destacadas montagens afirmando Mark Adriano como um dos expoentes artistas da nova geração com a criação de Tato: todo contato deixa uma marca (Prêmio Açorianos de Figurino) e Deméter, este último que deu o prêmio Açorianos de intérprete do Ano para Kiara Santana, primeira mulher trans e negra a receber esse reconhecimento.

Tivemos poesia numa aula de interpretação em movimento com Dezoito estações de outono com Ana Medeiros e Hiroshi Nishiyama resgatando a tradição do butô por esses pagos. Surto – um fauno em suspenso, da Cia GEDA, trouxe um exercício cênico que evidenciou a força e expressividade de Consuelo Valandro e arrebatou o Prêmio Açorianos de Cenografia.

2050 foi a montagem vencedora do Re-volta da Dança, premiação em parceria do Centro Municipal de Dança e Goethe Institut Porto Alegre e trouxe uma elaborada e cuidadosa montagem de uma Porto Alegre e suas idiossincrasias.
Adega de Lamúrias com Pedro Coelho e Mauricio Miranda trouxe uma lúdica e envolvente performance que convida a publico para um conversa, para contar histórias. E a dupla de criadores dança essas histórias com improviso e bom humor.
Bixa, Gordança e Meu pé de laranja bolo fizeram obras autobiográficas afirmando a diversidade de corpos e estéticas que em pleno século XXI precisam ser desafiadas. O solo de Jeferson Cabral, produzida pela Mimese Companhia de Dança-coisa, fez um contundente manifesto dos corpos dissidentes. Resultado da pesquisa da tese de doutorado da atriz e bailarina Renata Teixeira, com orientação da professora Patrícia Fagundes, Gordança fez uma crítica e bem humorada palestra dançada tecendo memórias de maneira envolvente e reflexiva. O comovente solo de Ronaldo Silveira e direção de Edison Garcia Meu pé de laranja bolo fez um mergulho na trajetória de um artista e suas perdas com as enchentes.

Cabaré dos pecados capitais veio com tudo: ousado, provocativo, inteligente e numa bafônica montagem com elementos teatrais, de pole dance e dança contemporânea. Em cena os intérpretes-criadores: Bianca Brochier (que assina a direção), Giovanna Greggianin, Guilherme Capaverde, Kynaê Primon, Lu Bier, Luiz Alberto Pivetta, Renata Brentano, Renata Pizzoni.
Contos Coreográficos para dois Rinocerontes com de Ivan Motta da Cia H trouxe os incríveis intérpretes Edison Garcia e Thais Petzhold mostrando que corpos carregam na sua maturidade uma potência recheada de poesia que só o tempo imprime.
O Grupo Andanças nos seus 25 anos de atividade trouxe Uma Dança para a Morte (Financiamento do Fumproarte) a partir de pesquisa das culturas que transformam a morte em celebração e renovação.

O Coletivo Moebius apresentou Aguaçal, uma breve e imersiva experiência cênica com trilha pra lá de bacana por conta das intérpretes criadoras Janaina Ferrari, Isadora Franco, Luíza Fischer, Patricia Nardelli e Renata Stein
A Casa Salto se afirmou como um importante espaço de formação e criação com eventos significativos como Jazz sem Fronteiras.
A dança flamenca seguiu mobilizando a cena e muito. Dame La libertad abriu a programação do ano com performance inspirada no poema musicado de José Manuel Caballero Bonald como encerramento da exposição Liberdade substantivo feminino. O coletivo Flamenco RS somou esforços de arte e solidariedade. Flamengo negro (Financiamento do Fumproarte) ocupou espaço e multiplicou espectadores. E Vivir (Cia Del Puerto) e Antes que seja noite, de Silvia Canarim, retomaram suas apresentações.
O Grupo Experimental de Dança chegou à maioridade com sua 18ª turma e com o espetáculo Tanatose, com direção de Georgia de Macedo e grand Adrielle Figueiró, Apolonia Ceci, Aterna Pessoa, Baubo Campanella, Bela Becker, Calíope Lange, Clara Grassi, Chris Gryschek, Enzo Zuboski, Fayola Ferreira, Frederico Vasques, Gabriela João, Graci Lianx, Kairo Ferreira, Kadrí, Karina Sieben, Laura Fernandes, lui karana, Li Pereira, Maiara Power, Vel Berlese, Yasmin (Mimi). E para comemorar teve início do GED 50+ sob batuta da diretora Bia Diamante.

As Cias Jovens de Dança fomentaram a arte na periferia da cidade com uma gurizada cheia de potencial cênico em montagens especialmente criadas pelos bailarinos e bailarinas da Cia Municipal de Dança. Cômoro, Cia Jovem Loureiro; Zona Indefinida, da Cia Jovem Pepita; Para onde vai? Cia Jovem Pasqualini e O mundo dentro de mim, da Cia Jovem Victor Issler.
O Coletivo Múltiplos firmou seu trabalho inclusivo com intérpretes PCDs e apresentou seu espetáculo no Porto Alegre em Cena e no Dança Alegre Alegrete num trabalho de dedicação da bailarina Denise Brose. Muita água ecoperformance que denuncia um sistema colapsado pelas águas que inundaram o RS em maio de 2024 marcou a produção com direção e atuação de Cibele Sastre, Fabiano Nunes e Juliana Vicari.
A preservação da memória da dança também teve espaço. Tivemos a exposição Nunca estivemos sós – Negrografias da Dança Cênica de Porto Alegre no Século XX. Nela a história de 21 artistas negros que marcaram a cena local como Iara Deodoro, Rubens Barbot, Ted Borges, Osmar Amaral, Alexandre Santos, Sayonara Pereira, entre outros. Tivemos ainda o lançamento da Biblioteca Digital de Movimento Iara Deodoro, uma pesquisa de ponto e inédita que une dança e tecnologia. E fechando o ano a primeira edição do Prêmio Claudio Etges de fotografia cênica, tendo como vencedor Nando Espinosa.

A dança de salão também marcou o ano, com o Forró de Rua se espalhando pelos espaços urbanos da cidade e o Território da Dança com três sedes confirmando o interesse em expansão por essas danças na capital.
Com mudança nos calendário eventos importantes conseguiram mobilizar a programação como o Sul em Dança Kids, a VIII Mostra de Artes Cênicas e Música do Teatro Glênio Peres, o 18º Palco Giratório SescRS, X Mostra de Processos Espaço N, Atos e Cenas do RSe o31º Porto Alegre em Cena.
E o evento Dança em Boa Cia, lotou o Theatro São Pedro e reuniu mais de 200 artistas numa ação solidária para profissionais da dança atingidos pela enchente. O evento tem a parceria da Asgadan e do Theatro São Pedro e foi produzido pela Cia Municipal de Dança e pelo Centro de Dança da Secretaria Municipal de Cultura e Economia Criativa da Prefeitura de Porto Alegre. ia Municipal de Dança de Porto Alegre e tendo em cena: Al Malgama, Alexandre Santos Estúdio de Dança, Ballet da UFRGS, Ballet Elizabeth Santos, Ballet Lenita Ruschel, Ballet Vera Bublitz, Carol Dalmolin Estúdio de Dança, Cia Municipal de Dança, Companhia H,Duo TAP (Gabriella Castro e Leonardo Dias), Flamenco RS, Gira Centro de Dança, Grupo Andanças, Grupo Diversidade, Grupo Gross, Pertence Cultural – Projeto Fábrica de Sonhos, Restinga Crew, Tanguera Estúdio de Danza,Transforma Cia de Dança e Uthopia Cia de Dança.
Provavelmente não deu pra incluir tudo nesse balanço, por não ter conseguido acompanhar todo esse intenso movimento da dança na capital com cada artista, escola, grupos, Cia e projeto que resistiu e povoou nossa Porto Alegre de dança novamente. Esse registro mesmo que parcial evidencia a força dessa produção mesmo com tantas adversidades. Não tem como não se comover e aplaudir todos esses esforços.





