





A arte de narrar nunca foi apenas uma experiência fascinante e envolvente, mas sim uma vivência estruturante individual, cultural e comunitariamente. Uma experiência em crise na atualidade, como trouxe à pauta recentemente o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han e já tratada por pensadores como Walter Benjamim que já alertou sobre o declínio da experiência e da narração na modernidade e o empobrecimento da experiência. Esse contexto faz da performance Biblioteca da Dança uma vital, inteligente, sensível e inspiradora ação artística.
Em Porto Alegre, ela se realizou no final da tarde fria e chuvosa na Biblioteca Josué Guimarães no Centro Municipal de Cultura Lupicínio Rodrigues dentro da programação do Sesc Palco Giratório. O público que chegava era conduzido pela bibliotecária do projeto a uma das mesas onde se encontravam os “livros” disponíveis para a leitura. E no caso, livros vivos e com nome e não com título. Em cada mesa um dos artistas se colocava como uma obra literária e nos oferecia os capítulos a serem escolhidos e contavam pra gente suas histórias de dança e de vida, detalhe importante, pois aqui vida e arte não se separam.
Lá conhecemos o episódio da Priscila, tecendo seu mundaréu de histórias com o cacuriá maranhense, com sua cantoria e sua dança, mas especialmente como experiência coletiva. E também o peculiar caso de Lelê e seu processo de vulnerabilidade de se tornar caroço murcho. Ou ainda a história de amor de Jorge Alencar e o sorriso do bailarino que iluminou uma van e a sua vida.
Biblioteca da dança é um “achado”, como diria minha avó se fosse começar a relatar como foi a experiência. Achado esse que humaniza o livro que de muitos de nós já se fez companheiro em tantos momentos. E que nos humaniza ao nos colocar ali, ao redor da mesa dentro de uma biblioteca, lugar tão intimista e que nos cerca de mais e mais livros por todos os lados.
E tem uma questão que atravessa toda essa experiência que é a de propiciar essa dimensão narrativa à dança tantas vezes colocada como uma arte mal alinhada ou alheia a essa possibilidade. A dança que pareceu muitas vezes condenada a uma noção empobrecedora narrativa como a dos libretos ou a ignorar a historicidade desses corpos que se movem em cena.
Se estamos enfrentando a cultura da hiperinformatização e a perda da profundidade da escuta e da atenção que a narração tradicional exige, a instalação Biblioteca da Dança nos permite estar diante desse tempo de se ficar ali dedicado a ouvir o resgate da memória que vai se desfiando. E dá vontade de “folhear” todos os capítulos e todos os livros, porque afinal atualizamos também as nossas histórias como nas provocações finais de cada “livro”. E lembramos que somos humanos, porque somos comunitários e comunicativos e não solitários seres de consumo apenas. E daí tem até espaço para gente sair ressoando aquela canção do Caetano que entoava: “tropeçavas nos astros desastrada/sem saber que a ventura e a desventura/dessa estrada que vai do nada ao nada/são livros e o luar contra a cultura”.
Biblioteca de Dança tem concepção e direção de Jorge Alencar & Neto Machado, da Dimenti Produções Culturais/ Salvador(Bahia). Criação e performance: Cândida Monte, Jorge Alencar, Larissa Lacerda, Luana Bezerra, Neto Machado, Priscila Pontes e Ruan Wills.
E quem perdeu tem a ultima apresentação nessa sexta-feira, dia 30/5, das 18 às 20h na Biblioteca Josué Guimarães, gratuitamente. Chega e vem ler essas histórias.