
Começo pelo o que me envolve em um espetáculo independente de qualquer coisa: uma proposta que arrisca e se joga sem ressalvas no que investiga. Por isso, Id, a identidade, apresentado no Bar Ocidente, me manteve atento e interessado em cenas muitas vezes pouco palatáveis e bastante intensas. A obra trouxe uma estética de terror que eu já vinha comentando sentir falta em Porto Alegre, dentro da produção de dança, e ao mesmo tempo trouxe uma equipe disposta e cheia de energia para essa realização.
As cenas pesam nas tintas literalmente e há até alerta nas mesas próximas da arena/palco: “zona de respingos”. Vem coisa por aí. Medo. O elenco reúne 5 intérpretes que encarnam a proposta e não duvidam dela. As bailarinaslarissa Kuhn, Giovana Rigo, Mafê Carvalho, Nina Braga e Sophia Oliveira defendem com unhas, dentes, sangue e vísceras as cenas com imagens perturbadoras, que vão ao limite dos excessos gestuais, expressivos, vocais e cênicos. Se instaura um clima de ritual, sabá de feiticeiras, uma celebração de bacantes, uma celebração alucinógêna, uma manifesto da carne feminina, um parto multisensorial, um sacrifício dilacerante.
Inevitável não acionar no espectador atento as referências de um mestre do terror, o escritor Stephen King, especialmente com seu clássico best seller Carrie, a estranha. Ou ainda os ecos de Samara Morgan, do universo do filme também do gênero O Chamado (The Ring, 2002). E mexer enquanto dança com essa estética é um dos atrativos e acerto de ID.
Assim como a cenografia (Alex Jardim) e a trilha (Ramon Gomes) que instauram com eficiência a atmosfera de apreensão, violência e estranheza. Há ainda sequencias coreográficas bem eleboradas e que se encaixam em toda essa ambientação. E há os corpos que se contorcem e reviram e desconfiguram.
Há, contudo, um cuidado que a obra precisa ter, o trânsito no limite entre o terror e loucura. Essa escolha que nasce tão promissora não carece de borrar essas fronteiras e arriscar cair nos esteriótipos recorrentes de corpos vagando e se debatendo desorientados ou aprisionados em vestimentas de conteção. O ID, os instintos, pulsões, desejos inconscientes são de outra ordem e força e dialogam de forma visceral com o terror por onde trafegam. Vale apostar nesse vetor. Um grito não proferido e contido internamente pode funcionar mais do que uma emissão além do crível. Vale apostar nas pulsões que acionam em nós o mais assutador que qualquer urro de criatura monstruosa pode trazer.
Enfim, uma estreia diferenciada na produção local, que com certeza pode amadurecer muito na sua trajetória que já tem nova data, dia 1/10 no Teatro Renascença. Que a dupla da direção Andi Goldenberg e Rafaela Machado siga essa investigação, que possam encontrar o tom desse gênero na dança que com certeza tem um público órfão de produções e especialmente que os jovens artistas possam exercitar uma das coisas mais dificieis na criação, o desapego que exige manter apenas o que cabe na obra, mais do que todos nossos desejos insaciáveis de ideias e imagens. Afinal o que aterroriza o corpo que dança?
FICHA TÉCNICA
Direção: Andi Goldenberg e Rafaela Machado
Parceria: Fractais PADT e Cia Curvas em Dança
Elenco: Clarissa Kuhn, Giovana Rigo, Mafê Carvalho, Nina Braga, Sophia Oliveira
Produção: Seis por Oito (Camila Balbueno e Ramon Gomes)
Trilha Sonora Original e Técnico de Som: Ramon Gomes
Figurinos: Carolina Teixeira
Cenografia: Alex Zardin
Iluminação: Gui Malgarizi
Fotografia: Josué Verdejo