Para morder o céu (de pêssego)

São muitas as imagens que o título “Céu de pêssego” nos provoca. O horizonte que frutifica. O sabor que nos cobre. Um pomar celestial. As cores aveludadas. Um convite à contemplação dos entardeceres. E não é que tudo isso e um bocado mais está no espetáculo da Quasar Cia de Dança, com temporada no Farol Santander? E é assim que cada gesto nos carrega e convida.

“Céu de Pêssego” é uma obra sobre o tempo, arrisco dizer e me explico. Afinal corpo e frutos precisam das estações para amadurecerem. O mesmo tempo que nós, espectadores, precisamos para apreciar os gestos e movimentos em cena que se revelam sem pressa, tenros. O espetáculo de Henrique Rodovalho nos presenteia com isso. Um elenco experiente que carrega histórias em cada corpo e dá uma lição de como a técnica não é um fim e que fazer uso dela exige saberes que só os anos e o entendimento cuidadoso da corporeidade possibilitam.

Entre seus 30 e cinquenta e poucos anos lá estão Carolina Amares, Daniela Moares, Fabiana Nunes, Jorge Garcia, Lavínia Bizzotto, Luciane Fontanella, Luiz Oliveira e Samuel Kavalerski. E eles não entram só no aquecimento. Vão pra jogo, como dizia meu avô. E jogam muiiiito e em várias posições, veteranos cheios de ginga e malícia da boa. E é assim que há delicadeza e força, há velocidade e pausa, há familiaridade e estranheza, a há riso e melancolia, há a medida certa e a abertura ao infinito. O elenco não dança pra si, como muitas vezes acontece no palco, o elenco é capaz de encher de matizes o céu aveludado que pisam e de partilharem com o espectador esses instantes quase depositando o olhar no nosso colo, nos buscando com um gesto.

E é desse modo que esse céu vai se estendendo sobre nós, com mansidão e densidade, como se fosse sendo bordado lá no alto. Como o sereno que vai caindo no final da tarde. É o resultado de uma coreografia refinada e inteligente que entende das texturas. A linguagem de movimento de Rodovalho é urdidura, trama tecida em cada ponto. Um trabalho artesanal. E que desliza pela inspirada trilha sonora de Lívia Nestrovski e Fred Ferreira pela qual o coreógrafo passeia na riqueza de andamentos, compassos que embalam os movimentos, mas que também convida o movimento a se permitir explorar outras direções sonoras e mesmo silenciosas.

O resultado é uma composição quase cinematográfica. Gestos e cenas criam uma sutil montagem visual no contraste, na incorporação, na simultaneidade, às vezes em cuidadosos planos detalhes fugidios. Uma câmera na mão que nos guia por corpos e enquadramenos possíveis para abrir em imponentes planos gerais que percorrem paisagens e lugares ainda não visitados. Uma plasticidade que se completa no figurinos e cenário da Cassio Brasil e na iluminação precisa e estratégica.

E isso talvez só possível com o tempo de uma Cia como a Quasar nos seus 37 anos de existência e insistência em Goiânia. Na determinação de Vera Bicalho e Henrique de manter a arte da dança viva por esse Brasil, apesar de todas as adversidades. No debate com estudantes com a Quasar, um disse não ver a dança por aí e ter tido uma experiência surpreeendente. É de tudo isso que o espetáculo “fala”. Desse descobrir de céu que se estende acima e na nossa frente.

A experiência e “Céu de pêssego” é dessa sensação dificil de nominar quando a gente se permite parar e se deixar invadir pala singela beleza de um entardecer. Das cores tantas que é impossível contar. Da nosssa grandeza e pequenez frente a tudo isso, de um céu tão esplendoroso que a gente tem vontade de esticar a mão, pegar e morder. Afinal a arte não deixa esquecer o sabores que guardam nosso viver. O espetáculo segue em temporada até domingo dia 9. Vai lá espiar!

Ficha técnica:


Direção artística e coreografia: Henrique Rodovalho

Direção geral Quasar e coordenação administrativa: Vera Bicalho

Produção executiva: Carolina Amares – Entre Produtora

Assistentes de Direção Artística: Lavínia Bizzotto e Samuel Kavalerski

Coordenação de ensaio e Coordenação de Palco: Carolina Franco

Elenco: Carolina Amares, Daniela Moraes, Fabiana Nunes, Jorge Garcia, Lavínia Bizzotto, Luciane Fontanella, Luiz Oliveira, Samuel Kavalerski

Trilha sonora original: Fred Ferreira e Lívia Nestrovski 

Figurino: Cássio Brasil
Cenário: Cássio Brasil e Henrique Rodovalho

Coordenação Técnica/ Operação de Luz: Patricia Savoy

Produção de Figurino: Bartira Davis

Ideia original: Vivian Navega e Henrique Rodovalho

Identidade Visual e Design: Samuel Kavalerski

Fotos: Jorge Sato

Deixe um comentário