Nada se compara

Ter uma experiência não é apenas viver um instante, mas ser transformado por um momento. Seja pela emoção que causa, pelas sensações que desperta, pelas ideias que mobiliza. O espetáculo Out of context – for Pina, do belga Alain Platel, nos presenteia com essa potente possibilidade. Nos tira do contexto naturalizado, do olhar viciado e anestesiado para aquilo que nos rodeia.

É assim que tudo começa como um estranho ritual. Intérpretes que se despem e ficam de roupa íntima, cobertos por mantas vermelhas buscando se identificar com os gestos em comum, com o cheiro familiar, com uma comunicação pré-verbal. Gradualmente o que acompanhamos são corpos que transitam do assombroso domínio técnico a bizarras configurações, do sublime ao clichê. A carne se afirma, capaz de resistir a rótulos por muito tempo.

A coreógrafa alemã, Pina Bausch, homenageada no título da obra, tinha o jeito dela de organizar o seu material de dança e de nos provocar experiências humanizadoras tão intensas. Platel encontra o seu, numa linguagem única. Faz uma dança contemporânea não porque faz esse ou aquele “passo” ou porque faz uso de procedimentos de vanguarda. Faz dança contemporânea porque dialoga com o seu tempo, com indivíduos deliciando-se ou sofrendo com os apelos que ecoam nos sucessos da pop music, com sujeitos tropeçando na intolerância e nas possibilidades de encontro, amparo e cooperação promovidos na babilônia da globalização multicultural.

Que metáfora melhor para os nossos tempos do que a ideia de que tudo está fora de lugar. Talvez a melhor contribuição da chamada pós-modernidade é a de ter evidenciado que nada nunca esteve no lugar e que cabe olhar para o mundo fora de contexto e afirmar a fabulosa singularidade de cada sujeito. Com direito a um engasgado e comovente final no qual tudo volta (supostamente) ao seu lugar, a como era antes, enquanto a voz do cantor octagenário americano Jimmy Scott proclama, murmurante, melancólico e doído: “nothing compares to you”.

Segundo Caderno/ Jornal Zero Hora, Porto Alegre, p. 6 – 6, 15 set. 2011.

foto: Chris Van der Burghtfoto:

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