Instinto: a humanidade errante à beira do abismo

É sobre 8 bilhões de pessoas no planeta. É sobre cada um de nós. É sobre o que nos faz humanos e humanas. Somos afinal sapiens. Temos um cérebro altamente desenvolvido. um polegar opositor e conquistamos a posição ereta que nos permite olhar mais longe. Somos seres sociais. Somos seres políticos. Somos seres que mentem e se arrependem. E a impiedosa e lúcida montagem de Instinto, concebida por Camila Bauer e Liane Venturella atualiza a obra do norueguês Henrik Ibsen para nosso assombro.

O texto escrito por Giuliano Zanchi, a partir da obra Brand, de Henrik Ibsen, contou com a colaboração dramatúrgica do elenco e tece um corrosivo roteiro noticioso, enciclopédico, teatral cheio de fragmentos que chegam em vozes múltiplas ou em gigantescas imagens projetadas. Assim vamos acompanhando a saga (des) humana de um personagem atrás de seus ideias e de alguma redenção a qualquer custo para as almas que habitam esse planeta . E ao trazer esse arquétipo do líder redentor, abre-se para as feridas históricas sobre todos que decidem seguir. Ps seguidores, palavra tão em vogo, né?

Camila Bauer faz uma montagem dinâmica, inteligente, sensível e cuidadosa. Vamos sendo cercados, como os animais em cena nas jaulas que nossa humanidade ergueu e segue erguendo. E esse recado está todo momento na cena. Essa dubiedade de quem está nesse zoológico como atração ou como visitante. Os elementos cênicos criados por Elcio Rossini possibilitam isso que a dramaturgia vai costurando. Uma dramaturgia que também está nas corporeidades que deitam e rolam literalmente, que desobedecem a lógica esperada inclusive.

E é nesse emaranhado que Alexsander Vidaleti, Fabiane Severo, Liane Venturella e Nelson Diniz perambulam em interpretações fortes e sutis como de quem transita pela beirada de um abismo. Cada palavra e gesto ganham relevo, hora num jogo ágil e coreográfico, hora numa suspensão densa, hora revestidos de uma camada tão fina que parecem poder ser rasgadas com uma respiração.

E o acerto da montagem está em cada elemento, da iluminação e videografias de Ricardo Vivian, no trabalho corporal da Carlota Albuquerque, nos adereços como o do boneco de pano amorfo, sem rosto, natimorto que as mulheres embalam como mães que tentam dar vida a um filho que se foi. (Lágrimas). E tudo isso embalado numa orquestração de magistral sonográfica, ali em cena, de Álvaro RosaCosta, que mais uma vez merece aplausos por sua originalidade e potência entre rave hipinótica, marcha militar, apoteótico carnaval e minimalismo tocante. Uma sonoridade que nos presenteia ainda com as intervenções de Paola Kirst que pilota samples, voz e batucadas.

Enquanto isso tudo passamos a limpo capítulos da nossa(s) triste(s) história(s). Líderes de todos as nacionalidades e suas manadas em nome de Deus, políticos e causas de toda ordem. O medo que acua e leva a luta ou à fuga. “Um século doente” como anuncia a projeção. E o teatro voltando a si para lembrar que tudo será esquecido, dos soldados que lutaram ao lado de Napoleão os bailarinos que dançaram com Michael Jackson.

Ainda há tempo? Somos, sapiens, mas poucos sábios, a personagem sentencia. A resposta parece tímida, mas de alguma forma por ali, num teatro lotado de alguns desses 8 bilhões que habitam o planeta, reunidos diante de artistas de tanta qualidade aqui pertinho na nossa propria cidade. Somos seres que ainda têm a arte, talvez como alternativa para não sucumbirmos a assistir atônitos as pulsões de vida se transformarem em pulsões de morte e de fim. Bravo Projeto Gompa!

(foto: Laura Testa)

EQUIPE ARTÍSTICA:

Concepção: Camila Bauer e Liane Venturella

Direção: Camila Bauer

Elenco: Alexsander Vidaleti, Fabiane Severo, Liane Venturella e Nelson Diniz

Sonografia e operação de som: Álvaro RosaCosta

Intervenção sonora autoral: Paola Kirst

Dramaturgia: Giuliano Zanchi, a partir da obra Brand, de Henrik Ibsen, e da colaboração dramatúrgica do elenco 

Direção coreográfica: Carlota Albuquerque

Cenografia e objetos: Elcio Rossini

Criação de vídeos: Elcio Rossini e Maurício Rossini

Iluminação e videografia: Ricardo Vivian

Figurinos: Daniel de Lion

Máscaras: Victor Lopes

Provocadores convidados: Alexsander Vidaleti, Elcio Rossini, Mailson Fantinel e Rafael Bricoli

Convidados para a música “Choro do Macaco”: Simone Rasslan (piano) e Beto Chedid (Violão e cavaquinho)

Participação em áudio feira (RO): Anderson Silva e Rinaldo Santos

Arte gráfica: Jéssica Barbosa

Fotografia de cena: Vilmar Carvalho

Divulgação: Léo Sant’Ana

Redes sociais: Pedro Bertoldi

Produção geral: Projeto Gompa 

Financiamento: Ibsen Scope

Agradecimento especial: Hilde Guri Hohlin, Korina Vasileiadou, Letícia Vieira, Sala Terpsi e Cia IncomodeTe

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