Cineclube de Imbé: cultura que aquece e transforma a cidade e nós

Em um município que não conta com nenhuma sala de cinema ou teatro, cada pequena iniciativa de fomentar um movimento artístico é um ato de afirmação e resistência a ser aplaudido. Neste sentido, já vínhamos comemorando as realizações do Cine Bahobah, com exibições ao ar livre promovidas pelos produtores culturais Juliana Ludwig e Marcelo Cabrera. Soma-se a esse movimento agora o Cineclube Tem que ver, realizado pelo professor e curador Álvaro Nicotti, com recursos da Lei Paulo Gustavo e que na noite de hoje realizou sua quarta sessão com a exibição de Recife frio, do diretor pernambucano Kleber Mendonça Filho, na Casa de Cultura de Imbé, o Castelinho que lotou a sala de exibição.
Antes de mais nada a afirmação de um público que veio crescendo e mostrando o interesse e valorização pela sétima arte e por uma programação diferenciada e de qualidade no município. A exibição do filme contou ainda com a participação do sociólogo e crítico de cinema de Recife, Leonardo Lima. O curta-metragem escolhido é uma das mais premiadas produções brasileiras e cria um falso documentário, recheado de ironia e crítica social de uma cidade tropical que sofre uma brusca mudança climática. A cidade ensolarada fica, chuvosa, fria e sombria, depois da queda de um meteoro.
Mas o filme não se reduz nem se esgota na temática climática. Engenhosamente o diretor tece um panorama de uma cidade em crise social e urbana. O cataclisma instaurado serve para permitir a ampliação e radicalização de uma realidade que se naturalizou. Uma cidade em que o espaço urbano se esvazia e desumaniza para dar lugar a eficaz exploração econômica em compasso de globalização e processos de gentrificação.
O local quase desaparece dando espaço a não-lugares, como o dos shoppings centers, dos empreendimentos imobiliários e de um turismo insustentável. Assistir a esse filme nesse mês de junho no Rio Grande do Sul pós-enchentes ganha relevância especial ainda mais em uma cidade litorânea sempre ameaçada por esses processos todos de aniquilamento de sua identidade, de suas paisagens, de sua gente, de sua cultura, em nome do dito “crescimento”.
Por isso, tão tocante a voz e imagem da ciranda de Lia de Itamaracá, esse patrimônio da cultura popular do nosso país, colocando todos a girar de mãos dadas e celebrar o lugar em que habitamos, o chão sobre o qual dançamos e que nos dá sentido de pertencimento e identidade tão surrupiados de nós constantemente. Então a cultura celebrada nessa noite com a sétima arte é tão importante e necessária ,pois é um modo de resistência ao aceitar os apagamentos que insistem em nos ameaçar.
Feliz de ter colaborado para viabilizar essa iniciativa e de prever que ela terá continuidade e vida longa, como o já consolidado circuito do Cine Salinha, realizado pela Associação Colarte, em Tramandaí. A arte segue aquecendo e transformando mesmo quando os ventos gélidos do inverno tentam se impor dentro de nós e ao nosso redor.

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