Um bálsamo cênico para a noite gelada que atravessamos

TIGER BALM – Experimento Cênico, do Coletivo Grupelho, estabelece de largada no título uma inteligente e provocativa ironia ao ter como referência o nome de um potente vasodilatador indicado para dores de várias partes do corpo como também para picadas de mosquito, prometendo um rápido e efetivo alívio. E esse bálsamo que dá nome ao experimento cênico é certeiro, em tempos de tantas feridas e dores de toda ordem, especialmente as emocionais e sociais. E assim a cada cena, esse cuidado com o outro vai se estabelecendo no partilhar o espaço, no partilhar o tempo, no partilhar o pão. Cada momento permite o seu devido tempo, encontra seu espaço acolhedor, oferece o amparo para quedas e tropeços, coisas tão ausentes das nossas vidas corridas e ilhadas do mundo atual. 


           Partilha-se um punhado de delicadeza, uma porção de precariedades, outra de angústias, assim como de um certo desespero, de uma dose de incredibilidade com os fatos que vão se dando. E os corpos vão construindo essas atmosferas na fisicalidade, sem palavras. A abertura  se dá com uma dança circular ao redor de um pão ainda por assar na qual o elenco faz seu ritual com o tronco nu. O pão, alimento, símbolo de fartura e de fome ao mesmo tempo. É com essas imagens que fica marcada a dança dos extremos, a beleza e o grotesco, abundância e a falta, a euforia e a tranqüilidade, o erótico e o pueril na qual se entregam Bruna Chiesa, Bruno Cunha, Débora Poitevin, Janaína Ferrari e Roberta Fofonka. Extremos que trafegam entre funks, música eletrônica, canções e interferências sonoras que por vezes parecem convidar à entrega, outras vezes seduzem como o canto das sereias atraindo para algum abismo que só desconfiamos sem  certezas. 
               E na construção dessa sutil dramaturgia, não há sobras. A obra se dá com uma economia na qual nada é acionado além do necessário. As escolhas são acertadas no figurino, na luz, na trilha nos elementos escolhidos. O experimento instaura seu universo levantado meticulosamente com as peças suficientes para se colocar em pé, nada mais do que isso, mas onde  fica evidente que a falta de qualquer desses elementos colocaria em risco o equilíbrio que vai se esboçando ao nosso redor (já que estamos dentro do experimento, sem a segurança e distanciamento das cadeiras da plateia).  E não acho que colocar o público pra dividir deva ser um recurso recorrente, mas no caso, além de acertado permitiu que eu apreciasse não só a nuca do espectador da frente, como também os sorrisos, os espantos nos rostos ao meu lado, à minha frente.

​     Tiger balm é um exercício de integridade, uma das qualidades que mais tem me interessado na cena em tempos de qualquer coisa vale. Uma proposta que apresenta sua proposta de maneira honesta, clara e a persegue sem concessões, de maneira quase obsessiva. Figurino: de Graça Ferrari, a trilha do DJ Henrique Fagundes, na iluminação de Iassanã Martins e só possível com uma acerta produção de Arthur Serpa.

        Em tempos de desvalorização da arte em geral e seu questionamento foi revigorante a obra e presenciar uma  Sala Álvaro Moreyra lotada numa quarta feira de um inverno chuvoso. Decididamente a arte não precisa ter função, mas pode talvez curar, aliviar ou compreender o caminho das nossas dores e as possíveis formas dessas dores escapar, driblar, amenizar ou mesmo eliminar. Um bálsamo cênico para a noite gelada que atravessamos.

24/07/2019

foto: Lucas Saccon

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