Ele ( e nós todos e outrxs mais)

A escolha do nome sempre diz muito, costumo repetir. E “Ele”, o primeiro espetáculo solo de Gabriel Matías apresentado no Teatro Renascença é um acerto. Ao generalizar-se num pronome, se empresta a muitas identidades. Afinal, essa figura que adentra em cena visita muitos “eles” que a maturidade artística e técnica conquistada pelo jovem bailarino permite transitar. E assim, nas suas coreografias autorais, ele busca inspiração nas criações mais emblemáticas de maestros de baile flamenco internacional, como as Alegrias de Mario Maya, a soleá de El Güito, ou a Farruca de Tomás de Madrid.

Mas Gabriel se faz no plural e usa o legado desses mestres para fazer-se muitos em cena. É falcão ágil e preciso. É condor altivo que paira por sobre as nuvens. É pássaro que pousa suave em um galho frágil. É estouro de uma manada. É fera e cordeiro. Transita por masculinidades e feminilidades que pouco se importam com gênero, pois o que promovem é a dança de nossos sentidos.

Ainda que não haja menção explicita ao butô japonês de Tatsumi Higikata (1928-1986) e Kazuo Ohno (1908-2010), vemos em cena um exercício que daquela estética se aproxima, no que tange ao artista que empresta seu corpo a muitas formas, despe-se da sua identidade e nome próprio. E não é de estranhar já que os dois grandes nomes do buto tiveram na dança flamenca uma referência decisiva, sejas nas aulas que Higikata freqüentou, sejam na dançarina de flamenco Antonia Mercé y Luque, conhecida como “La Argentina”, que tanto encantou Ohno.

O fato é que o tempo se redimensiona e somos levados pelo baile de Gabriel por muitos lugares que suas múltiplas personas nos levam. E vamos juntos com ele, acompanhado pelos músicos Giovani Capeletti e Roberto Monteiro (guitarras flamencas), Eugênio Romero (cante), Gustavo Rosa e Pedro Fernandez (percussão), e com a participação especial dos bailaores Robinson Gambarra e Juliana Prestes. Tudo bem urdido pela produção de Dani Zill e luz de Fabrício Simões, ambos impecáveis.

Como dito no material de divulgação: “Talvez um dia eu me conheça, talvez não. O que eu sei é que teu alimento nunca faltará. Bailo porque tu me dás vida”.

28/07/2019

Foto: Thami Vieceli

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