Muximba: o sentir para além das normas e padrões

Falar de singularidade e diversidade está na pauta do momento. Isso basta? Ou caberia nos indagarmos o quanto queremos ou o quanto nos dispomos a vivenciar, a nos relacionar e a deixar perceber tudo que não corresponde ao que estamos acostumados a reconhecer? Estamos aberto a lidar com tudo que não funciona dentro da ordem e das maneiras que operamos ou que operam quem convive próximo de nós? Muximba, o coração sempre permanece criançada, da Cia Giradança, de Natal (RN), não foge de encarar de frente essas questões e de ousar colocar em cena uma obra de dança para o público infantil e para todo mundo que arrisca ampliar as fronteiras do sentir.

O material do espetáculo indica que é “apropriado também para crianças neurodivergentes e atípicas”. E o que vemos em cena são inúmeros seres de multiformes. Corpos cobertos com folhas artificiais como um arbusto, um ser todo plástico, outro que parece uma árvore de natal desorientada, um amontoado de bolotas rastejantes, um ajuntamento de panos pendulantes, uma criatura feita de tentáculos de espuma. Sim, seres que desafiam nome e classificação. Ainda assim, seres ali, dividindo o espaço com a gente, e que se aproximam, revelam uma mão, um braço, um par de pés, seres que tocam e se permitem serem tocados, para um certo pavor de alguns espectadores.

E além disso, não está ali a coreografia como de praxe. Não tem o passo de dança. Não tem as exibições técnicas. E não tem nem a música, apenas um murmúrio que vem da caixa de som e a sonoridade daqueles corpos que por ali transitam, vagam entre nós. Sim, eles não articulam palavras, mas ocupam esse espaço com sua própria linguagem, mínima, repetitiva. Solicitam uma comunicação sem idioma já dominado.

Então não temos parâmetros para racionalizar e interpretar, além de vivenciar essa experiência. Sim é uma experiência do sensível. E esse é o saboroso desafio ético e estético de Muximba. O desafio de nos deslocarmos das expectativas e familiaridades e mergulharmos nessa descoberta, de percepções, de entendimentos outros, de outro modo de existir. E sim, daí para isso, é preciso se permitir tempo. Tempo de permanecer, tempo se segurar a velocidade alucinante dos nossos tempos, de admitir que nem tudo precisa caber na pressa e nos imediatismos. Tempo para que outra possibilidade se estabeleça, ainda que vagarosa, ainda que arredia, ainda que estranha, ainda que fascinante no seu modo único de ser e ali estar a nos desorientar nas nossas certezas.

O espetáculo foi apresentado dentro da Programação do 30º Porto Alegre em Cena, no saguão do Centro municipal de Cultura, Arte e Lazer Lupicínio Rodrigues, numa tarde de céu cinzento com clima morno e instaurou um território do sentir para além das normas e padrões. Um exercício de existir e de ocupar lugar no mundo com qualquer outro ser. Quem quiser que entre nessa dança que não é só da cena, mas do nosso próprio viver, incerto e plural.

Ficha técnica:

Direção artística: Alexandre Américo / Roteiro e dramaturgia: Pedro Vitu / Concepção: Alexandre Américo e Pedro Vitu / Dança: Álvaro Dantas, Ana Vieira, Jania Santos, Marconi Araújo, Joselma Soares, Francisca Angélica e Wilson Macário / Música: Mateus Tinoc / Figurino: Jô Bomfim / Ilustração e pesquisa: Raphael Soares / Design Gráfico: Vinicius Dantas | Aya + / Direção e produção executiva: Celso Filio / Assessoria de comunicação: Carol Reis / Fotos: Brunno Martins / Vídeos: Taline Freitas / Redes sociais: Álvaro Dantas / Direção Espaço Gira Dança: Roberto Morais / Direção Financeira: Cecilia Amara / Desenho de projeto e captação de recursos: Listo! Produções Artísticas / Idealização e concepção: Giradança e Listo! Produções Artísticas / Realização: Ministério da Cultura, Lei de Incentivo à Cultura e Governo Federal / Patrocínio: Itaú e Instituto GPA

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