O mundo de Marlboro

Em tempos pós-modernos, nos quais falar de uma masculinidade, no singular, parece descabido, algumas marcas dessa tal masculinidade ainda ecoam insistentemente. Esse é o tema que o espetáculo Lonesome cowboy traz com sua dança. Em uma coreografia enxuta, cenografia eficientíssima e iluminação competente e precisa, esboçam-se belas imagens e metáforas. Cinco bailarinos se confrontam em uma arena, que por vezes parece um ringue, por vezes um campo de futebol de gramado sombrio. O quinteto é cercado por luzes que revelam e escondem, como as luzes intensas de um estádio ou penumbráticas, porém denunciantes, como as de uma penitenciária.
A Cia de Philippe Saire, da Suiça, investe nas marcas que insistem em ser invocadas pela figura do macho que precisa assegurar sua supremacia à força, como um chamado da natureza ao qual se é incapaz de escapar. Assim, aparecem em cena constantes confrontos e disputas, que revelam o apuro técnico dos intérpretes, que se prolongam e se desdobram. O que dá conta do que a obra pretende tratar, mas não abre espaço para ambigüidades e complexidades que tal contexto desenha.
As nuances se esboçam mesmo com plenitude, em um trio, mais ao final do espetáculo, no qual a Companhia mostra todo seu domínio técnico, criatividade e humor em um excelente jogo corporal de muitos sentidos, composições que não respondem às expectativas de hombridade. Talvez essa seja a melhor síntese do espetáculo, quando os movimentos e os corpos brincam com os duplos sentidos tão presente no discurso e brincadeiras masculinos. E aí, consegue subverter a ordem que impera no palco. Em outros tempos, a publicidade de cigarros idealizou um mundo exclusivamente masculino dos cowboys, convidando a que todos identificados com esse apelo viessem para o mundo de Marlboro, garantia de uma certa brutalidade indomável. Ao revisitar a figura do cowboy, o espetáculo revisita algo que vem sendo desmistificado no cinema (Brokeback Mountain), na literatura (Midnight Cowboy) e até mesmo nas novelas (América). Contudo, o mundo ainda é povoado talvez pela sua pior faceta, seja a dos hooligans capazes de espancar um adversário até a morte, seja a das gangues que agridem imigrantes e gays, seja o da misoginia. Mitos bem reais que vão além de cowboys solitários engolindo uma bebida forte e dizendo palavrões. Lonesome cowboy coloca em xeque esses heróis, mas querendo acreditar que tudo não passa de uma eterna briguinha entre amigos que se entenderão depois de mais um gole.

Zero hora – Segundo Caderno- 15/09/2010

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