permanecer é necessário e decisivo

Dezembro de 2018. O ano encerrava-se politicamente e esperançosamente melancólico para quem conseguia perceber tudo que estava ameaçado quando se celebra sem pudor a ditadura, a censura, o desrespeito à diversidade, à cultura, à racionalidade. Foi assim que fui assistir a Ranhuras na Sala Álvaro Moreyra. E lá, estava um grupo de jovens artistas, ex alunos do Grupo Experimental de Dança, buscando na articulação coletiva seguir fazendo arte em Porto Alegre. Isso por si só já era animador. Mas, além disso, estava diante de um trabalho nada fácil. Um trabalho de quem sabe que arte não é só pra agradar os sentidos e o bom gosto. Um trabalho de quem sabe que dança não é apenas coreografia ou passos bacaninhas na música. Um trabalho de quem não tem medo. Um trabalho de quem sabe que ser político não é tarefa só dos eleitos, mas de todo corpo que afirma a busca de uma existência mais digna.

E depois que vários meses a montagem segue inquietadora, agora dentro da programação do Festival Porto Alegre em Cena, dia 13 e 14, na Sala Álvaro Moreyra. Na sua abertura, temos um corpo nu, caído no chão, observado por um grupo sento em cena, que por várias vezes ameaça alguma atitude que nunca se efetiva. O corpo segue, banhado por estranhas manchas luminosas projetadas. Murmúrios ruidosos vão ganhando volume, gradualmente. E e só depois de muitas tentativas em vão que cada um desse grupo sai e vaga pelo espaço proferindo frases que se sobrepõem, tornando quase inteligível o que proclamam.

As imagens em grande dimensão são projetadas ao fundo com interferências visuais embaralhadas e mal sintonizadas e alternam-se em duração tão curta, dificultando organizar as notícias do que já se passou. Uma metáfora de um país sem memória, ameaçado de ver sua história desfigurada, apagada, suprimida, desfeita. A ambiência sonora é ruidosa. Tudo incomoda. A atmosfera parece rarefeita. Os corpos perambulam sem fôlego. Caem e tentar se levantar recorrentemente.

A obra consegue nos deixar angustiados. Desperta o desejo de que algo aconteça, de que algo rompa o ciclo que vai deixando os corpos sem força, exaustos, cambaleantes. E nesse jogo de encurralar, sentimos que é pelas frestas que permite respirar. Que é preciso outras estratégias para superar o cansaço que tenta se impor. E que estar ali, junto e permanecer é necessário e decisivo.

Ficha técnica

Concepção e coreografia: Coletivo Moebius / Elenco: Luíza Fischer, Patrícia Nardelli, Priya Mariana Konrad, Renata Stein e Sahaj / Trilha Sonora: Coletivo Medula – Isabel Nogueira e Luciano Zanatta / Iluminação: Casemiro Azevedo / Projeção: Paula Pinheiro / Produção e Realização: Coletivo Moebius Foto: Adriana Marchiori

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