A gente (e a cena) precisa não morrer

Espetáculo Dura Máter, de Bruna Gomes, que integra a Mostra Web Açorianos de Dança. Foto: Clovis Dariano

Em tempos de pandemia que se prolongou por mais tempo do que gostaríamos e imaginássemos, levando amigos, familiares, conhecidos, o mais importante é nos mantermos vivos. Não há futuro, cobranças, melhoras, exigências a serem feitas para atuação na cena artística ou em que esfera seja se não estivermos ainda aqui. E em meio a espera da vacina, uti cheias, aglomerações desnecessárias, tu se pergunta a importância de escrever sobre a cena no meio disso tudo, quando até a cena saiu de cena. Demorei uns dois meses depois do começo da pandemia pra voltar a escrever no Cenatxt. Primeiro achei que não tinha cena para escrever com os teatros fechados. Logo percebi que a cena de reinventa no universo virtual. Também vi a necessidade de entender esse processo e escrever sobre ele. E de rastrear toda iniciativa que me dava um sopro de mobilização, minimamente semelhante aquela que sentia quando era plateia num teatro. Em algum momento pensei ser pouco e desanimei.

As coisas pioraram com a virada de ano e senti a doença em mim e a cada dia mais próxima dos próximos. E a morte virou rotina nas timelines, nos noticiosos, por todos os lados. E com tudo isso, foi importante uma nova parada e uma dificuldade em retomar. E fiquei um tempão pensando na (des) necessidade de escrever sobre a cena em agonia, na falta de perspectiva.

Mas eis que frente à iminência de um fim a gente regula as medidas, não por consolo ou compensação. Porque a vida se faz, desfaz e refaz imprevisível e incerta, mas sempre possível. Então lembrei desse título: precisamos não morrer. E o que resta pode parecer pouco. Mas esse pouco é o que permite ainda manter o que nos move.

Refleti quando me perguntavam por que dar aula pra meia dúzia? por que participar de lives para um pingo de gente? pra que cenas on line pra poucos? Por que fazer uma web mostra de montagens antigas? Por que criar mais um vídeo dança? Por que escrever sobre o que quase não mais existe?

Primeiro há de se relativizar as medidas. Afinal muito já fiz teatro presencial pra meia dúzia de espectadores, assim como assisti montagens pra duas pessoas comigo na plateia. E isso não impediu a intensidade de afetação, de novas apresentações de casa cheia ou mesmo a insistência na construção de um público onde quase nenhum havia. Faz parte essa teimosia.

Também há uma realidade que o mundo on- line reserva. Na transmissão on- line podem ser poucos/as, mas fica lá muitas vezes disponível e o alcance e acesso se multiplica. Às vezes numa amplitude maior que o modo presencial. E uma memória se preserva, se multiplica, ecoa. E num país quase sem memória esse pode ser um grande e importante serviço.

Mas talvez mais que tudo isso há o que essas modestas ações afirmam e despertam. Cada vez que partilhamos há alguém que acolhe e entende que é possível não desistir. E isso não é pouco nesse momento. Vi a vibração em comentários, senti a troca instantânea, vibrei com desdobramentos que não esperava daquilo que parece inútil fazer e insistir. Nasceram  projetos e parcerias inimagináveis, mesmo que diminutos, serenos e vagarosos, sem a exuberância, urgências e grandezas que poderiam ou mereceriam  ter. Manter vivo, seja pra quantos forem ou do modo e tamanho que for. Talvez seja o suficiente e a medida do que se tem. E ok para aqueles/as que não conseguem ou não querem essa medida.

Já havia, antes da pandemia mesmo, um nítido e perigoso processo de aniquilamento e desmonte da arte e artistas para o qual o mais subversivo e afirmar que continuamos aqui. Reduzidos/as um pouco? provavelmente em certa medida. Exaustos/as? uma boa parte. Entristecidos/as frente aos ataques e ruinas? Todos e todas. Impassíveis e descrentes? Uma boa parcela não. E é isso/esses/essas que resistem que podem apontar para algo mais pleno, justo, escandaloso, festivo, múltiplo, diverso, afetuoso, envolvente, participativo, comunitário, humano. Que bom ver que tem um bocado de gente na periferia, no interior, nos grandes centros, coletivamente ou bravamente solitários/solidários disposta a não deixar a gente (e a cena) morrer. Afinal, se estava certo Belchior: “tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro/ ano passado eu morri mas esse ano eu não morro”!

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