E o (vídeo) circo chegou

Respeitável público, demorei-me um pouco para registrar a importante iniciativa do FECICO, o Festival de Circo Contemporâneo 100% on-line e gratuito, que aconteceu de 20 a 25 de abril, com uma programação que envolveu inúmeros artistas, produções contemporâneas de circo com espetáculos, mostra de videocirco e lives com temas como festivais, mulheres do circo e circo lgbtqi+, além de oficinas de produção audiovisual e elaboração de projetos. Uma iniciativa dos produtores e artistas Fendanda Boff, Gabriel Martins e Gabrielle Fraga. Mas que bom que um dos benefícios dessa produção virtual é que permanece disponível. Então, mesmo que com um pouquinho de atraso, acho importante registrar essa tão, tão especial iniciativa que deixa tantas inquietações e também um valioso material acessível. Um Festival “contemporâneo” que se alinha com o conceito que escolhe ao colocar o circo em diálogo com seu próprio tempo.

Começo então pelo documentário que foi produzido. Um mini doc que faz um painel do processo na perspectiva dos diretores, artistas, idealizadores e da equipe audiovisual, concebido por Gabriel Martins e com roteiro, captação e edição de Arion Engers, muito ágil, divertido e informativo. Com imagens e depoimentos que permitem perceber essa polifonia de vozes que foram se articulando. Um material que permite entender melhor o processo das produções e o pensamento de múltiplos artistas. Um valioso registro para esse momento histórico e estético do circo de uma produção coletiva num momento virtual tão potente.

Soma-se a isso essa produção de videocirco. Se a videodança já vinha dando trabalho em muitos sentidos, desde a formulação de seu conceito à produção cada vez mais intensa, o circo revela que essa aproximação com a linguagem audiovisual pode promover um saboroso picadeiro digital. Temáticas contundentes e produções caprichadas pontuam as cinco obras que integraram a programação e que merecem ser vistas e revistas.

Que metáfora mais inspiradora essa de pensar a forma circular e a nossa vida. “O que faz a roda girar” traz isso como a descrição apresenta”Acordar, tomar café, ler as notícias… o mundo segue girando. O que move a roda do mundo? estaríamos aprisionados em confortáveis círculos viciosos?” Um cuidadoso percurso visual que teve direção de Guadalupe Casal e com participação dos performers Paolla Ollitsak e Joaquin Vivas e participação especial: Caetano Wurlitzer Acuña

“O que há em nós ” teve direção de Fernanda Bertoncello Boff é um elaborado estudo no qual os bem selecionados enquadramentos e a inteligente edição tentam capturar um delicado interior da performer Agata Andriola, que se projeta no mundo externo. Me fez lembrar o filósofo português José Gil que afirma algo mais ou menos como: dançar não é mover o corpo no espaço, mas sim fazer/criar o espaço com esse corpo que dança e se move. Um mover que se faz mundo! ” Uma investigação com circo, dança e vídeo que busca costurar as partes, emaranhar as fronteiras e conectar o espectador com um universo curioso de muita imaginação”

“Aspecto in”, uma parceria entre o festival FECICO e os artistes Carol Martins e Guilherme Gonçalves traz um arrojado trabalho que aborda questões de gênero entrelaçadas com a linguagem do circo e da performance. Um experimento que problematiza de maneira inquietante e poética o corpo-identidade não-binário, “o lugar corpo entre masculinização e efeminação”. Aqui, o trabalho corporal faz o questionamento constante de escapar das ciladas deterministas redutoras, das padronizações e dos rótulos. (link não permitido para compartilhamento por restrição de idade, mas acessível no youtube)

“Pelas mãos” faz um vigoroso e ao mesmo tempo delicado ensaio sobre esse corpo que busca o apoio, o toque o tato. É assim a direção de Wagner Ferraz faz Daniel Cavalheiro, Psico (Alfredo Bermudez) e Zeca Padilha transitarem como que rastreando esse espaço ao redor. Espaço que permite o agir, mas que também, por vezes parece aprisionar. “Pelas mãos se busca o apoio no solo, pelas mãos uma caminhada acontece e, é por essas mesmas mãos, perseguidas pelo olhar, que se desenha o espaço cênico do circo contemporâneo. Seja no solo, no ar, em contato com objetos, em movimento ou em pausa.”

“Ascensão” traça suas imagens a partir da circularidade do bambolê para acionar camadas do que podem ser universos femininos. Natureza/cultura é o binômio que a obra tensiona. Com uma narrativa não linear, joga com a visão “espetacularizada e exotizada dos imaginários coletivos até uma abordagem que questiona e evidencia as violências e distanciamentos da complexidade do ser mulher em nosso tempo”. Direção e roteiro: Daniel Aires Elenco: Umbigo de Bruxa – Camila Matzenauer e Natália Dolwitsch. (link não permitido para compartilhamento por restrição de idade, mas acessível no youtube)

Enfim, o Circo chegando para bagunçar o coreto! E um bagunçar cheio de posicionamento e reflexões que não ficam na esfera do artístico e se esparram pela vida. Lições estéticas e éticas tão necessárias e bem-vindas! Te joga nesse picadeiro, tá esperando o que?

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