Cárcere: teatro para invocar as forças que parecem nos faltar

Ontem o Porto Alegre Em Cena teve uma noite memorável no palco do Theatro São Pedro com a apresentação do Cárcere ou porque as mulheres viram búfalos, da @ciateatroheliopolis, que ainda tem sessão hoje, às 20h.
Imperdível para quem gosta de teatro, e para todos que não se conformam com as injustiças que se naturalizam e se perpetuam no nosso país.
Quais os motivos para não perder:
1) um grupo de uma das maiores favelas do Brasil, em São Paulo, mostrando a potência da arte em território que é identificado quase sempre pela pobreza e violência.
2) um grupo que resiste há 22 anos, o que no nosso país já merece ser celebrado
3) o texto contundente que deu o Prêmio Shell a Dione Carlos, dramaturga que soube tecer essa temática dolorosa com rigor e inventividade, com capacidade de humanizar sem simplificar o árduo tema do sistema prisional e judicial brasileiro e do racismo impregnado nas nossas institucionalidades que redunda no encarceramento massivo das pessoas negras, pobres e periféricas
5) um elenco de um fabuloso trabalho corporal e vocal, com uma trilha sonora primorosa que mescla percussão e cordas num resultado que transita pelos instantes de delicadeza, de assombro e de efusão.
6) uma encenação dinâmica nas suas duas horas de duração
7) uma montagem repleta de imagens poderosas que aproximam a cela e o lar, embaralhando celebração e lamento, os de hoje e os de outrora, dos navios negreiros e da escravidão
8) as performance feminina de força e intensidade como esposas, mãe, amigas, irmãs, amantes, cidadãs guerreiras e dilaceradas, Marias das Dores e dos Prazeres.
9) a tessitura de todo esse contexto com a mitologia afrobrasileira que traz figuras como Oyá/Iansã
10) a experiência teatral que nos coloca junto lado a lado, frente à frente, palco e plateia lembrando que as dores que não são nossas também nos ferem, e que habitamos as mesmas cidades, um mesmo país, um mesmo planeta ainda que tudo reforce um isolamento estratégico e fragilizador e desigualdades historicamente enfronhadas nas nossas vidas cotidianas

Bora, lá que teatro é assim, é do momento que a gente agarra, como os chifres do búfalo a nos fazer acreditar na força que podemos invocar.

Encenação: Miguel Rocha / Assistência de direção: Davi Guimarães / Texto: Dione Carlos / Elenco: Antônio Valdevino, Anderson Sales, Dalma Régia, Danyel Freitas, Davi Guimarães, Isabelle Rocha, Jefferson Matias, Jucimara Canteiro, Priscila Modesto e Walmir Bess / Direção musical: Renato Navarro / Assistência de direção musical: César Martini / Musicistas: Alisson Amador (percussão),

Amanda Abá (violoncelo), Denise Oliveira (violino) e Jennifer Cardoso (viola) / Cenografia: Eliseu Weide / Iluminação: Miguel Rocha e Toninho Rodrigues / Figurino: Samara Costa / Assistência de figurino: Clara Njambela / Costureira: Yaisa Bispo / Operação de som: Lucas Bressanin / Operação de luz: Nicholas Matheus / Cenotécnica: Wanderley Silva / Provocação vocal, arranjos e composição da música do ‘manifesto das mulheres’: Bel Borges/ Provocação vocal, orientação em atuação-musicalidade e arranjos – percussão ‘chamado de Iansã’: Luciano Mendes de Jesus / Estudo da prática corporal e direção de movimento: Érika Moura / Provocação cênica: Bernadeth Alves; Carminda Mendes André; Maria Fernanda Vomero/ Comentadores: Bruno Paes Manso e Salloma Salomão / Mesas de debates: Juliana Borges, Preta Ferreira, Roberto da Silva e Salloma Salomão, com mediação de Maria Fernanda Vomero / Orientação de dança afro: Janete Santiago /Direção de produção: Dalma Régia/ Produção executiva: Davi Guimarães e Miguel Rocha / Fotos: Rick Barneschi, Tiggaz e Weslei Barba/ Idealização e produção: Companhia de Teatro Heliópolis

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