Dança de Porto Alegre no Cariri ou arte, cultura, Sesc e um Brasil imenso pra se encontrar

 Ontem às 19 horas em Nova Olinda, interior do Ceará, o Teatro Violeta Arraes, que fica na Fundação Casa Grande, recebia a Companhia Municipal de Dança de Porto Alegre com o espetáculo BRAZIL BEIJO, criado pela israelense Orly Portal, dentro da programação Mostra Sesc de Culturas Cariri 2019. É muito especial e significativo de ver a Companhia, que não recebeu nenhum recurso esse ano e segue lutando junto com muita gente desde 2014 para ser mantida pelo poder público, seguir se apresentando, mas essa apresentação vem num momento que é preciso repetir e destacar tudo que está envolvido em uma ação dessas que passa despercebida para tantos em meio aos tumultuados tempos que atravessamos.

Em primeiro lugar porque reside nessa ação a possibilidade de aproximar duas pontas de um país tão difícil de se encontrarem nesse imenso Brasil que muitos preferem que fique distanciado. Em menos de uma hora, em uma noite no interior do Nordeste um universo se abre, pra quem chega nesse encontro, seja quem veio de algumas quadras dali, seja quem veio de milhares de quilômetros. Ali, em Nova Olinda, no Teatro Violeta Arraes, na Fundação Casa Grande.

E com isso ficamos sabendo desse pequeno município de pouco mais de 15 mil habitantes e a mais de 500 km da capital Fortaleza, que eu, e muitos da equipe sabiam muito pouco.

E ali nesse município poder se encantar com a Fundação Casa Grande que foi criada pelo casal de músicos, pesquisadores e arqueólogos Alemberg Quindins e Roseane Lima Verde, com objetivo de proporcionar atividades educativas que colocasse a comunidade local em uma relação mais profunda com sua própria história, que pudesse ampliar seu repertório cultural e gerasse perspectivas de inclusão social e profissional. E, para isso, promove várias ações,  envolvendo memória, patrimônio, arqueologia, gestão cultural, meio ambiente, arte, cidadania, turismo comunitário e sustentabilidade. E conta com um espaço cênico, desde 2002, com 180 lugares e que valoriza o conjunto arquitetônico dos engenhos de rapadura da região.

Esse valioso encontro só foi possível graças a ação do SESC – Serviço Social do Comércio, que talvez, exatamente por isso, venha sendo ameaçado de ter suas ações culturais comprometidas pelo atual governo federal (aliás se acha que  ações como essa devem continuar tem uma petição importante de ser assinada https://peticaopublica.com.br/pview.aspx?pi=BR113905.) Afinal, basta um clique para conferir que a Mostra Sesc de Culturas Cariri 2019 envolve mais de 300 atividades gratuitas em 23 cidades do Cariri, protagonizadas por mestres da cultura, brincantes, artistas locais e de outros estados. “Assim, tanto o público quanto os participantes vão ter a oportunidade de trocar ideias e experiências, a partir do intercâmbio de conhecimento. O fazer artístico e suas variadas expressões, questões de acessibilidade, sustentabilidade, manifestações populares, patrimônio imaterial e memória social são apenas alguns dos temas que vão ser discutidos e partilhados ao longo dos cinco dias da Mostra”.

Nessa singela noite de ontem, no palco estave Brazil-Beijo que trabalha com narrativas e hinos da tribo marroquina Gnawa. Uma tribo que foi exilada de Gana para o Marrocos e se estabeleceu nas montanhas do Atlas – escravos que se tornaram uma fonte de orgulho e encontraram sua liberdade pela música e pela dança. Os sons da adaptação feminina da antiga música ritual tribal (geralmente realizada pelos homens), juntamente com os ritmos brasileiros e palavras faladas em português, enfatizam um novo sentido de existência e liberdade. Música e vocais criados por bailarinos geram um leve toque de relance, liberando os grilhões do tempo, cultura, geografia e gênero. Em cena: Andressa Pereira, Kleo Di Santys, Mauricio Miranda, Pamela Agostini e Paula Finn, sob a direção de Paula Amazonas e Luz de Maurício Rosa, que ainda passam por Crato e Juazeiro do Norte.

Ao mesmo tempo que a gente assiste à tentativa de desarticular ações como essa (e da propria Bienal Internacional de Dança do Ceará, entre outras), percebemos que apesar de tudo, elas seguem acontecendo. Talvez em menor volume, talvez mais silenciosas e sutis. Mas sempre transformadoras, vitais e intensas. Assim como na noite de ontem quando o público se dirigiu ao teatrinho da cidade pra ver uma Cia de dança de longe, dançado um trabalho de uma artista de mais longe ainda e terminar comovidos, entusiasmados, inquietados, mexidos, aproximados e, provavelmente, insatisfeitos com tudo que lhes for pouco na existência. Não importa o sotaque, o idioma ou a distância do lugar. E isso deve incomodar um bocado quem torce que a gente se satisfaça com pouco, com muito pouco.

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