Os espetáculos que ficaram na memória (do século XX)

Em 1999, eu editava o jornal Palco & Platéia, da Coordenação de Artes Cênicas (SMC), e com a proximidade da virada do século pensamos junto com o Coordenador Luiz Paulo Vasconcellos, em ver qual a memória dos espetáculos de teatro que o século XX tinha deixado. Não tínhamos pretensão de ser a lista dos melhores de todo esse período, mas de tentar perceber o que tinha ficado como vestígio na lembrança de quem produzia na época. Foram 50 profissionais (diretores, atores, atrizes, dramaturgos, jornalistas culturais, críticos, figurinistas, produtores, cenógrafos, pesquisadores, professores…) que receberam a proposta de enviar uma lista com 10 espetáculos que julgavam haver marcado a cena teatral de Porto Alegre até aquele momento.

Na lista final acabaram figurando:

Os reis vagabundos (1982), do Grupo Tear e direção da Maria Helena Lopes.

Bella Ciao (1989), da Cia Etceteratral e direção de Néstor Monastério.

Crônica da cidade pequena (1984), do Grupo Tear e direção da Maria Helena Lopes

Macário, o afortunado (1991), da Cia Face & Carretos e direção de Camilo de Lélis

Mockinpott (1975), dirigida por José Gomes.

O estranho Sr. Paulo (1996), da Cia Face & Carretos e direção de Camilo de Lélis

Antígona (1990), da tribo de Atuadores Ói nós aqui traveiz

O ferreiro e a morte (1987), da Cia Face & Carretos e direção de Camilo de Lélis

Jogos na hora da sesta (1977), direção do Paulo Albuquerque

Peer Gyntt, o imperador de si mesmo (1987), do Teatro Vivo, direção de Irene Brietzke

Decameron (1993), da Cia di Stravaganza, com direção de Luis Henrique Palese

Frankie, Frankie, Frankenstein (1979), do Teatro Vivo, com direção de Irene Brietzke

Independente do resultado, a proposta era de movimentar a memória do teatro e perceber como é frágil e volátil essa memória. Se olharmos cronologicamente, nota-se que ela alcança pouco mais de três décadas desse passado. Ou seja, além de trazer à tona um pouco desse importante passado, essa lista sinaliza o quanto é precária nossa história da cena local e de como é fundamental toda iniciativa de preservar e de difundir essa história que é tão efêmera, que resiste nas nossas lembranças (com prazo de validade às vezes bem curto) apenas se não foram de alguma forma preservadas.

E talvez por isso mais do que o resultado o que mais me atraiu na época foi a lista com os 132 espetáculos que foram mencionados nas listas recebidas. Um exercício muito especial de recordar montagens que pude assistir e ficaram marcadas por diferentes motivos como Bailei na curva, do Julio Conte, talvez a mais popular de todas;  A mãe da miss e o pai do punk, do Luiz Arthur Nunes, com os impagáveis Guto Pereira e Paulo Vicente; Buffet Gloria, do Elcio Rossini com a hilariante Ilana Kaplan; Ostal, da Terreira da Tribo com a insuperável Arlete Cunha; Onde estão meus óculos, da  habilidosa Miriam Amaral; Esconderijos do Tempo, da anárquica Elena Quintana; O primeiro milagre do Menino Jesus, com o incrível e multifacetado Roberto Birindelli; a magia de Mundéu, o segredo da noite, do Gilberto Icle; Escondida na calcinha, da irreverente Patsy Cecato; e a debochada Farsa Trágica , do Marcelo Restori e Anil, um exercício de pura poesia do Dilmar Messias.

Ao mesmo tempo a lista tinha também o sabor de montagens que eu não tinha assistido, mas tinha muito ouvido falar como Viagem ao centro da terra, do Humberto Vieira; Marat Sade, do Néstor Monastério e Juan Carlos Sosa; A lato do lixo da história, do Luciano Alabarse; ; ou O bafão, cabaré e confusão, de Renato Campão; ou ainda Apareceu a Margarida, do Luiz Paulo Vasconcellos com a grande Sandra Dani.

Mas a lista era feita também de espetáculos que eu nunca tinha ouvido falar como Conversa de anjos, de Carlos Carvalho e A divina proporção e a Felicidade não esperneia, pattati patatá, da Terreira da Tribo; Das duas uma, do Vende-se Sonhos; As flores do mal, do João Pedro Gil; A morta, de Ana Maria Taborda; Pintores e Cano, de Mario Mazzetti; As cinzas do general, do Julio Zanotta Vieira ou ainda As feiticeiras de Salem, dos Comediantes da Cidade com direção de Olavo Saldanha, no penoso ano de 1964 .

Desde essa época ficava pensando o que cada montagem tinha significado, mobilizado, provocado. E afinal, o que tinha gerado de estímulo para que a cada geração novos artistas se sentissem impelidos a essa carreira.

Capítulos fabulosos de uma história não contada ou mal contada, no sentido que praticamente ninguém conta, afinal não se tem nem notícia de um disciplina de história do teatro local eu tenho notícias (e me corrijam se estiver errado que vou ficar bem feliz de me retratar). E se houvesse um curso sobre o teme, haveria interessados?

A intenção então era de dividir esse material (com breve ficha técnica e sinopse das 10 mais votadas e a lista completa de todas as peças citadas, em anexo), antes que ele se extraviasse no tempo e na memória. E ver se dele podem surgir outras iniciativas de seguir mexendo nesse passado, não como simples exercício de nostalgia, mas porque podemos sempre e sempre aprender com ele, e muito.

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