Ainda essa tal de dança contemporânea?

Em 2005 publiquei um texto no qual tentava tratar do entendimento da dança contemporânea, originalmente na extinta Revista Aplauso (nº 70), a convite do jornalsita Daniel Feix. O texto foi partilhado no ano seguinte no site idança.net (http://beta.idanca.net/esta-tal-de-danca-contemporanea/). E de lá pra cá foram mais uma centena de comentários, partilhas, retorno de professores universitários e aluno/as que trabalharam com ele em sala de aula, enfim um bocado de diálogos e reflexões que ele promoveu e despertou. Passados 15 anos sinto a necessidade de seguir dialogando com as questões que a dança contemporânea nos coloca. E de redimensionar o texto original. Até porque assim é o pensamento, continuamente se fazendo, desfazendo, refazendo. O pensamento não fica lá parado, estático, reinando absoluto pra sempre porque nos tranquilizou momentaneamente.

Gedesis: 7 atos experimentais: Grupo Experimental de Dança 2018

Então, essa é a questão que gostaria de retomar. Como a dança contemporânea não se contenta com uma definição tranquila e perene, assim toda dança que se proponha a dialogar com seu tempo, seja se designando contemporânea ou não. O que tem me interessado cada vez menos é saber se uma dança é ou deixa de ser contemporânea, mas sim se essa(s) dança(s) tem um modo contemporâneo de pensar/fazer/sentir/atuar/mover. Nesse sentido, me interessam as danças que estão atentas às condições do seu tempo. E o tempo contemporâneo, não é o neolítico, nem o medieval, nem o moderno (ainda que algumas danças de hoje prefiram se alinhar a essas outras temporalidades). As questões do balé da corte não incluíam uma enormidade de saberes e perspectivas que a última meia dúzia de séculos vem nos colocando e que vem se modificando com uma velocidade nunca experimentada.

Questões sociais, econômicas, culturais e políticas nos colocam em outro lugar quer a gente queira/goste ou não. Não nos alimentamos mais das mesmas coisas, não respiramos o mesmo ar, não nos relacionamos do mesmo jeito, não adoecemos apenas daqueles males, não nos medicamos das mesmas fórmulas, não nos movemos na mesma velocidade, nas nos comunicamos com o mesmo alcance. São muitas as condições que nos impõem outros modos de existência. Podemos até manter a nostalgia e achar que até era melhor numa outra época, mas essa outra época não é a nossa. Então me interessa esse modo de estar e ser, com esse tempo, estar e ser contemporâneo. Isso me interessa.

E não é fácil tirar as camadas de tempo que vão se sedimentando na gente e na própria dança. Só não adianta acreditar que o tempo não segue e negar as mudanças, forjando um tempo artificial.

Quais condições seriam essas? Muitas, e por isso não tenho pretensão alguma de esgotá-las, mas apenas e modestamente de indicar algumas que me desafiaram e desafiam. A profusão de informações, a aceleração das rotinas, o encurtamento das distâncias e distanciamento progressivo entre as pessoas, os grandes avanços da tecnologia e a penúria humana do planeta, ampliação da visibilidade de minorias e a reconhecimento dos seus direitos, a diversidade cultural escandalosamente evidente, a inabilidade e temor de lidar com toda essa diversidade, conquistas democráticas e escalada de fundamentalismos, celebração do empreendedorismo, doença do humor, cura do que matava, violência de onde não brotava, novas éticas dos afetos e do social. Tensões, complexidades, recuos, avanços, inclusão, censura.

Uma dança contemporânea, pra mim, é aquela que não se furta de incluir essas questões não apenas na temática do seu espetáculo do ano, mas que faz essas questões redimensionarem os modos de ensino, de criação, de convivência, de organização, de produção entre quem se dedica à dança. E, assim, é contemporâneo muito do que se faz no tap dance, na dança tribal, nas danças urbanas, no flamenco e mesmo no balé, nas danças folclóricas, ou seja que dança for. Já vi muita dança dita contemporânea forjada em contornos medievais ou absolutistas e já vi danças populares e urbanas que celebram a diversidade de gêneros, de gerações e de classes como nenhuma outra.

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E com isso não desejo nem espero que todo mundo deva parar de fazer a dança do tempo que quiser. Mas prefiro e acho urgente e necessário que ganhe espaço e amplitude a perspectiva contemporânea que mesmo que pareça utópica proponha modos mais éticos de se dançar, ensinar e aprender dança, de ser apreciar dança e isso só pode ser produzido ao se olhar ao redor desse nosso tempo e perceber o que eles nos solicita. Dançar bonito pra mim não é dançar o melhor passo, mas o passo que possa fazer essa nossa existência mais humana.

Referências:

TOMAZZONI, Cleci. Meu filho dança o quê? Edição Caseira. 1998.

PALUDO, Luciana; TOMAZZONI, Airton. Prosas necessárias, suaves e insistentes. (2003-2020). No prelo.

PACHECO, Marcelo. A vida é pra se viver: saberes rente ao chão e outras despretensiosas lições. 2006.

Diálogos com quem não dança. Vários autores. Mimeografado. s/data.

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