O (bom) teatro de Vera Karam, agora na sala de casa

Quando todo esse processo de isolamento e quarentena começou em Porto Alegre, levei um tempo para processar essa mudança em relação à cena que saiu de cena abruptamente. Demorei um pouco para aceitar, começar a entender e acompanhar a nova cena que se configurava virtualmente, e me interessar nesse ethos midiático da cena que se instituía de maneira efetiva. E, por isso, não tive tempo de fazer um registro que agora me permito, retornando lá no início do mês de abril, quando me defrontei com as primeiras experiências alternativas para tentar dar conta das programações que deveriam acontecer no palco. E me refiro aqui ao Ciclo de Leituras on line  60 anos – Vera Karam, realizado pela Coordenação de Artes Cênicas da SMC/POA.

A programação tinha planejado uma série de leituras dramáticas dos textos da dramaturga gaúcha que faleceu prematuramente em 2003, mas que deixou um legado de peças teatrais, esquetes e contos com uma linguagem implacável para tratar daquele cotidiano corriqueiro que enreda nossa existência. Teve Quem Sabe A Gente Continua Amanhã?, com Lauro Ramalho; Por Que Você Não Disse Que Me Amava, como Marcelo Adams, direção de Margarida Peixoto; Dá Licença, Por Favor?, com Coletivo Errática e A Floresta e o Visitante, com Grupo Pretagô.

Mas vou me ater na apresentação on line pelo Youtube de Maldito Coração, (me alegra que tu sofras, um monólogo que acompanha a narrativa delirante de uma mulher apaixonada. Além de trazer esse saboroso texto teatral, a leitura conseguiu produzir uma obra instigante e devidamente adaptada em sua versão de vídeo e sua exibição virtual. Fui percebendo que o que era uma alternativa às pressas, se firmava como uma obra singular e de valor próprio.

O primeiro acerto dessa empreitada foi desdobrar o monólogo em três vozes e na escalação de três atrizes que não se furtaram de se jogar no universo de Vera Karam: Janaina Pelizzon, Fernanda Petit e Miriã Possani. Essa tríade conseguiu extrair, com a direção de Petit, nuances e interpretações que afloraram uma potência cênica capaz de traduzir o complexo, confuso e arrebatador universo emocional da personagem. O confronto dessa diferentes vozes permitiu notar quantas personas cabiam naquele maldito coração sofrendo e insistindo numa paixão devastadora. Entre a racionalidade ambígua e o riso patético, entre a melancolia doída e a explícita penúria sentimental, as três atrizes compuseram uma narrativa envolvente e tocante. Na medida e na desmedida, no sussurro e no engasgo Fernanda, Janaína e Miriã fizeram do recanto doméstico do confinamento projetar o abismo que a personagem afunda.

E esse contorno se tornou viável na edição acertada de Amanda Gatti que aproveitou os recursos da linguagem audiovisual. Foi dosando o tempo exato das cenas, os inusitados enquadramentos que ajudaram a traduzir a interioridade dessa mulher, o uso da cor e do P&B, a orquestração dessas vozes que se contrastavam uma após a outra, que se sobrepunham dissonantes ou confessionais, complementando-se ou até se desautorizando.

Fui sendo levado pela agonizante aflição fragilizada que a Petit imprimiu ao texto, pela lucidez corrosiva da Janaína deu à personagem e pela ironia suspeita que a Miriã entonava. E juro que não senti falta de sintonizar na novela, coisa que admito que gosto, às vezes nesse horário. Me senti contemplado com uma dramaturgia cativante e eficaz em me prender e que em seu formato ainda me permitia rever (o que já fiz algumas vezes como mesmo sabor da primeira): https://www.youtube.com/watch?v=s_Kcgx28Bqw. Ali comecei a acreditar que tinha algo de valioso nessa cena midiática que se colocava de forma imperativa e que se abria à arte da cena que inteligente e sensivelmente pode se estabelecer. Dava pra começar a acreditar e imaginar um horizonte promissor no meio dessa pandemia. Teatro do bom, com excelentes atrizes daqui, na sala de casa. Não, não é o mesmo que antes, mas pode, de outro jeito ser tri bom (com direito à sotaque). Como sentencia a personagem da peça: “Existe alguma coisa mais verdadeira do que aquela que a gente imagina?”

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