CFI Os Gaúchos: tradição que se renova e encanta

No dia 29 de abril, em comemoração ao Dia Internacional da Dança pude voltar a assistir no palco o Conjunto Folclórico Internacional Os Gaúchos no Teatro Renascença. A ocasião por si só já estaria revestida de relevância cultural. Tínhamos a reabertura de um espaço público municipal extremamente importante. Tínhamos a data que internacionalmente se comemora a dança pelo mundo. Tínhamos em cena o grupo mais antigo de dança da capital gaúcha, com 62 anos de trajetória. E tínhamos a primeira apresentação a que eu assistia depois que a saudosa mestra Nilva Pinto nos deixou e deixou de dirigir o Grupo. Mas o que mais me chamou atenção foi que este grupo que assume o cultivo a tradição volta à cena com uma força e uma capacidade de renovação que foi uma animadora surpresa.

O CFI, como é conhecido, foi criado em 1959 pela folclorista uruguaia Profa. Marina Cortinas Lampros com a finalidade de pesquisar e divulgar a cultura dos povos através da música e da dança. Para essa iniciativa contou com a participação decisiva de Nilza Pinto e Amélia Maristany Mayer, que faziam sua formação em ballet na academia da Prof.a Lya Bastian Meyer. Percorrendo os principais CTGs da cidade reuniram nomes como o de Antônio Augusto Fagundes, Carlos Castillos, Jorge Karan e Ery e Cecília Assenato do 35 CTG e Cláudio Lazzarotto do CTG Pagos da Saudade, da VARIG, na ocasião, campeão gaúcho de chula. Em novembro do mesmo ano, o Conjunto de Folclore Internacional fez sua primeira apresentação, por ocasião da inauguração da TV Piratini, canal 5, de Porto Alegre.

É parte dessa história que o publico pode conferir no Teatro Renascença. No palco, a tradução do trabalho bem feito de Alexandre Grivicich, Rosane Farina, Lucelia Adami Nunes, e Lucia Brunelli para manter o trabalho do grupo vivo e pulsante. E conseguiram! Em cena, estampas de diversas culturas que influenciaram na formação do CFI em uma homenagem aos 250 anos da cidade de Porto Alegre. Na abertura, quadros recuperavam a melhor atmosfera paraguaia e a influência guaranítica. O folclore do Arquipélago dos Açores, de onde vieram os primeiros colonizadores da capital, também brilhou. E as coreografias da folclore gaúcho coroaram o final da programação com direito a uma bela apresentação de chula.

Em cada cena todo cuidadoso figurino que recupera os trajes de cada cultura de rara beleza e rigor (aliás o acervo de vestimentas do grupo é um raro acervo que temos em Porto Alegre, pela sua amplitude de peças de figurino que não se encontra facilmente e tão bem preservados). As coreografias nos presenteiam com a diversidade de estilos, gestos e contextos culturais de cada região e reuniu veteranos bailarinos e bailarinas e integrantes que recentemente passaram a integrar o elenco – e todos irretocáveis. Além disso, a apresentação trouxe uma jovem formação musical de primeira qualidade, com personalidade única que conquistou o público trazendo novas roupagens às interpretações com duas exímias e carismáticas cantoras  (Camila Martinevski e Ana Matielo, que também assume o violão), instrumentistas que mandam ver (Gabriel Sporleder na percussão e Lucas Azambuja na bateria) e arranjos e repertório inspirados e acertados sob a batuta de Lourenço Valentini (piano e acordeon). 

A plateia como eu, saiu querendo mais. Nos transportamos e vibramos com a manifestação de cada cultura ali apresentava, culturas preservadas na nossa memória, mas também em nossos  corações. Que o grupo possa ter vida longa, dando continuidade a esse valioso trabalho que precisa e merece ser conhecido valorizado e incentivado na nossa cidade. Deveria ser um programa permanente, pois é uma patrimônio. E destaco que é um patrimônio que entende que a tradição tem também sua dinâmica e que preservar raízes não é mantê-las adormecidas e sem vitalidade. A apresentação do CFI Os Gaúchos revela que tradição e contemporaneidade não são extremos inconciliáveis. É um orgulho ter um grupo assim na capital. Dona Nilva, seu legado segue e muito bem cuidado. Que o público, autoridades e patrocinadores conheçam e apoiem esse inestimável trabalho.

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